20 outubro 2006

Hipocondríacos

Pablo Picasso. Ciência e caridade (1897)


Há sociedades em que discussões sobre dinheiro e doenças são liminarmente interditas e repelidas como manifestação de grosseria. Muito embora o tema da doença, nódulo maldito da existência, esteja presente na literatura desde os tempos babilónicos - a Bíblia reserva-lhe honras brutais - as suas vítimas preferenciais - os homens comuns - fogem da sua presença, lamentam-na e odeiam-na como uma fatalidade. Nós portugueses, porém, queremo-la, ansiamos pela sua chegada e instalação, quase a veneramos pela dor que nos tortura, pela piedade que desperta nos que nos cercam, pelos efeitos que causa. É um povo de doentes que se compraz com apólogos de hospital, de clínica e de câmara ardente. As disputas sobre quem tem a doença mais dolorosa, o discorrer quase impudente sobre cortes, pus, fístulas, abcessos, soturas e cicatrizes, hemorróidas, cancros da mama e da próstata, carcinomas, depressões, gastrites, enfisemas, glaucomas, micoses e doenças urulógicas ocupam o tempo dos nossos semelhantes. Daí que o estado geral seja propenso a elevar a doença a tema de primeiro plano da política. O primeiro-ministro reservou-lhe honras de discurso no acto de entronização, as televisões ocupam os noticiários com casos hospitalares e os tribunais estão literalmente cheios de pendências em que as doenças imperam. Os portugueses adoram hospitais, farmácias e consultórios, pelo que tocar-lhes nesses templos é crime de lesa-existência.

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