30 outubro 2006

A desprezível raça humana


O título não é meu: peço-o emprestada a Mark Twain, essa figura extraordinária de quem, infelizmente, só lemos a obra menor. O confrade Jansenista lança hoje a pergunta. Terei, também eu, sofrido a terrível metamorfose que leva à misantropia ? Não a confundamos com aquele que dá pelo nome , mas é pessoa boníssima. Não, só seria um misantropo se algum dia tivesse acreditado, um segundo que fosse, na bondade dos nossos semelhantes. Desde criança me apercebi a que extremos de malvadez, crueldade e mesquinhez, mentira e inveja são capazes os nossos semelhantes. O racismo, o ódio político, o desprezo pelos humildes e pelos deficientes, a inveja pelos que mais bens materiais e qualidades intelectuais possuem não são coisas em si, mas reflexo dessa maldade inata. Sou, como sempre fui, de um precavido e silencioso pessimismo antropológico. Acredito que a educação, a leitura, as regras sociais, a prática da caridade e a amizade desinteressada melhoram os indivíduos, minoram as pulsões criminosas, suavizam as inclinações patológicas. Mas não me convenço, em absoluto, que tudo isso erradique a raíz. O combate pela decência é travado todos os dias, a começar por cada um de nós. É por isso que sou conservador sem ser conservantista, respeitador da tradição sem ser tradicionalista, personalista sem ser individualista. Estamos todos no mesmo barco, só que uns preferem os porões. Eu prefiro a gávea. Talvez daí possa ver e falar com as gaivotas, bem menos nocivas que a desprezível raça humana.

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