29 outubro 2006

Desastres étnicos

A vã ilusão de forjar sociedades homogéneas em populações caracterizadas pela diversidade étnica, linguística e religiosa tem sido uma das obsessões do Estado Moderno. Unidade jurídica codificadora, unidade institucional sem atentar à diversidade dos factores regionais e das especificidades sociais dos grupos, unidade de credo e de linhas distintas de evolução cultural parecem ser o escopo de repetidos desastres tentados uma, duas, três, dez vezes, retundam sempre no colapso de toda a sociedade.
A historiografia e a sociologia política têm vindo a revelar que tais tentativas unitaristas - essa precipitação de um "modelo puro" de sociedade saída da retorta de visionarismos de engenharias sociais dementadas - ao contrário de afectarem somente o grupo perseguido e erradicado, acabam por matar a riqueza e a estabilidade de um país. Os espanhóis e os portugueses fizeram-no com os judeus no século XVI e o resultado deu frutos imediatos: as duas nações ibéricas perderam a casta de financistas, desagregaram as amarras que uniam os judeus europeus na intrincada rede de contactos comerciais, provocaram uma hemorragia de letrados e ´permitiram que a sua ciência fosse servir a concorrência britânica e holandesa.
Nada tendo aprendido com a lição, os nossos impetuosos vizinhos voltaram a repetir a experiência em finais do século XVI, agora descarregando sobre as numerosas comunidades mudéjar e morisca o peso de culpas jamais provadas. Se os mudéjares mantinham estreita relação com a cultura islâmica, os moriscos há muito se haviam convertido ao catolicismo. Da sua expulsão por atacado entre 1609 e 1616, resultou um desastre económico irreparável, não nas regiões de maior concentração destas populações (Aragão, Valência, Granada), mas de todo o reino. Os melhores artífices - ourives, tanoeiros, ferradores - os mais hábeis agricultores e hortelãos, os mais experientes cirurgiões, os mais dinâmicos almocreves desapareceram sem que ninguém mais pudesse desenvolver essas tarefas. Todo o comércio interno espanhol entrou em depressão, reduzindo vastas regiões da meseta em desertos humanos. Fora-se o sangue que permitira a irrigação, o transporte, as trocas internas.
No século XVII, Luís XIV, ao revogar o Édito de Nantes, impôs a conversão forçada ou saída imediata, precedida de confiscação de bens, de todos os huguenotes. Ora, com tal medida, permitiu o enriquecimento da Inglaterra, dos Países Baixos e dos estados alemães protestantes. O comércio de longa distância francês quase desapareceu, as colónias da América do Norte jamais recuperaram do desastre e até os produtos franceses mais cotados nas praças financeiras e comerciais depressam perderam capacidade competitiva, pois os huguenotes fixaram indústrias de panos, cervejeiras, maquinaria de precisão e fundições nas sociedades de acolhimento. A coerência do Estado unitário do Rei Sol empobreceu o reino e ditou o desastre da sua política belicista.
Em 1972, Idi Amin , tendo recebido "uma ordem de Deus", decretou a expulsão de todos os asiáticos de ascendência indiana do Uganda. Os indianos eram, tão só, os responsáveis pela actividade bancária, os importadores e exportadores, os grossistas e distribuidores, os professores, os médicos e enfermeiros diplomados e gestores. O Uganda, uma das pérolas do antigo império britânico, entrou em desagregação. Depois de uma invasão estrangeira, de duas crudelíssimas guerras civis e de décadas ingovernabilidade, os ugandesas pretendem reparar esse mal. Mas o tempo não pára. Os indianos que outroram deram prosperidade ao Uganda estabeleceram-se noutras paragens e são ricos. Não regressarão.
Outro tanto poderíamos dizer do machelismo em Moçambique, do mugabismo no Zimbabwe e da expulsão dos cipriotas gregos pelos Turcos. As minorias étnicas estabelecidas são como o grão de mostarda e o sal nas comunidades em que vivem. Erradicá-las pode ajudar momentaneamente um tirano a ganhar as graças da populaça, sempre ávida de rapina e invejosa até ao tutano. Porém, as consequências ficam e são perduráveis. Ouvia ontem um demente que se candidata à presidência da Bulgária afirmar que, se fosse investido, determinaria a expulsão da minoria turca. Pois bem, os búlgaros que votem na criatura. Daqui a dez anos estarão ainda mais pobres e ridículos, pois a minoria turca búlgara é o sustentáculo da vida rural, responsável por 2/3 das exportações da nação balcânica mais pobre.

Sem comentários: