18 outubro 2006

Coprolalia, o fascínio pelo palavrão

O caro Jansenista dispara certeiramente sobre uma pecha característica dos portugueses: a tendência irreprimível para proferir obscenidades. Um povo com jargão de carroceiro, uma juventude paupérrima em recursos vocabulares, que mal sabe escrever e não consegue concatenar um discurso - quem não domina as subtilezas da inteligência de uma língua não consegue pensar - um amontoado de doutorzinhos e doutorazecas incapazes de escrever um simples postal de Natal sem cometer dez atentados ortográficos, morfológicos, semânticos e estilísticos, concentra toda a criatividade no soez coleccionismo do palavrão. Não que outros povos não sejam, também, vítimas desta servidão. Os espanhóis usam o coño com um despudor quase prostibular, os franceses o connard e a pufiasse sem hesitações, os alemães possuem um arsenal de arschloch, waschlappen e schwanzkase urdidos no ambiente das casernas prussianas e os italianos atingem os píncaros da erudição canalha. Mas entre nós a coisa está a assumir proporções inquietantes. Políticos, jornalistas, escritores e escrevinhadores pedem a esmola do aplauso da ralé. Um bom palavrão, debicar em excrementos, alusões metafóricas de chão propósito genital fazem uma plateia. Até aqui na blogosfera, supostamente, um local bem pouco democrático - de fora estão os "info-excluídos" - está a dar-se a fatídica derrapagem para o culto do sórdido. Queixava-se há tempos um amigo, olhando-me com comiseração, por que raio eu nunca proferia uma obscenidade. Não consegui responder. Talvez esteja demasiado fora da atmosfera. Talvez não precise conquistar amigos e cúmplices. Talvez seja um associal. Conjecturas...