16 outubro 2006

Cabeçudos: a recusa do Eu


Agarrados a meia dúzia de ideias e conceitos, mais uns quantos títulos e autores - habitualmente não lidos e tomados de empréstimo em vulgatas - e uma centena de pequenos adornos de carpintaria, entre citações, "factos", números e outras aritméticas, aí temos aqueles que pervertem e reduzem o espírito a diorama ideológico. Só há relativamente pouco tempo me dei conta dos efeitos devastadores que a religião civil exerce sobre os indivíduos. A tara ideológica afecta quase todos, dos que nada leram aos que muito leram, dos que têm uma necessidade imperiosa de crer em algo aos que encontraram no bazar das fantasias a farpela que melhor se adapta a tudo o que já pensavam antes da revelação. Há os que se sentem acompanhados aderindo à ideologia hegemónica, repetindo o credo, ostentando a fé pública, salpicando o discurso de rodriguinhos e convicções que melhor cumprem a expectativa aprovadora. Num deserto de ideias, a mera invocação dos "direitos" do Homem, da Liberdade, da Democracia, da Tolerância, das minorias, um aceno à multiculturalidade e ao "género" provoca milagres. Há os outros, os desadaptados, os que frequentam as capelas clandestinas das culturas proibidas. A ideologia vem demonstrar, ao contrário do que se pensava, que a cultura não liberta: a cultura aprisiona. Quer saber a que religião civil pertence um indivíduo? Visite-o em casa, olhe para a estante: se ali só encontrar Wagner, Céline, Pound, Schmitt, Ernst Jünger, Arno Brecker, Riefensthal e Brito, pode ter a certeza que está em casa de um fascista. Se, porém, só tiver Althusser, Marcuse, Benjamin, Fromm, mais Saramago, mais a estafada galeria do neo-realejo, mais baladismo, está numa casa sinistra. Lembro-me, agora com um sorriso envergonhado, da atenção excessiva que a minha geração dedicou ao Vue de Droite, de Alain de Benoist. Folheio esse compêndio de pronto-a-pensar de direita e rio-me: minimalista, abusivo e quase despudorado na preocupação de dar cabimento justificador a todos os temas, da biologia à arquelogia, das belas-artes à literatura. A ideologia é um vício. Sem ela, os fracos de espírito não conseguem respirar, argumentar e existir. As religiões políticas são, pois, a negação da Filosofia e do Eu.