26 outubro 2006

Arrogância, ordinarice e despeito de Reis Torgal


Prefiro uma hora de bisca lambida aos serões televisivos, pelo que raramente perco uma molécula do meu tempo em frente do devastador "caixote que mudou o mundo". Ontem chovia, não me apetecia ler, nem falar ao telefone, nem fazer as contas do negócio. Abri e assisti àquele debate sobre o homem em quem ninguém pode votar.


De súbito, bota discurso uma criatura hirsuta, mãos de cavador, casaco surrado e olhar esquivo, de quem tenho na segunda camada da estante uma cronologiazeca, uma deplorável História da História em Portugal e um confrangedor António José de Almeida e a República. Dizem ser um dos papas dessa provinciana, ultra-reaccionária, imobilista e ritualista academia estabelecida em Coimbra desde o século XIII. Universidade atavicamente desprezada pelos congéneres europeus - até ao século XV os seus alunos eram objecto de irrisão por não dominarem sequer o latim ! - cheia de uma auto-estima que não resiste à mais leve acareação, foi, quanto muito, uma boa prisão de almas e espíritos até aos tempos de Quental e da greve académica de 1907. Essa universidade produziu, que eu saiba, apenas uma meia dúzia de grandes homens de cultura de estatura e reconhecimento europeus. O primeiro terá sido António Homem, discípulo de Francisco Suárez. Foi repelido pelos seus pares - ciosos e despeitados - tendo acabado em churrasco no Paço da Ribeira. É tudo o que Coimbra deu! Das outras excepções, lembro um Paulo Quintela - que fora leitor na Alemanha - e Joaquim de Carvalho, que nas cartas a Luís Cardim e Rodrigues Lapa se queixava da miséria mental que grassava por Coimbra.


O "Doutor" Torgal - assim quis que o tratassem - mostrou-se indigno da primeira à última intervenção. Roncante, impreciso ao um extremo de quase impressionismo mental, incapaz de elaborar um discurso, mas sempre ufano dos seus títulos, lá foi tentando chamar a atenção para a impressionte colecção de troféus que diz possuir. Perdia-se nas palavras, voltando sempre a si, a si e a si, à "ciência", à "cultura", ao saber das "elites". Saía-lhe pela narinas ofegantes a escolástica tardo-marxista, os tiques, os ódios e afectações que fazem de tal gente uma raça ante-diluviana que teima em se manter. Nisso foi apoiado por uma tal Joana, símbolo da ignorância atrevida e trepadorista; em suma, da estpidez inteligente


A figura Torgal atingiu o clímax da grosseria ao apontar baterias sobre José Hermano Saraiva, procurando desprezá-lo e reduzi-lo a um "contador de estórias". Sim, ele, criatura Torgal, é um cientista, um intelectual, um homem de cultura. O "outro", um mero entertainer.


Quem valeu para todo esse ajuntamento foi o velho e sempre distinto Professor Saraiva, esse sim, de utilidade pública reconhecida, com 60 anos de serviço ao Estado, a Portugal e aos portugueses. Disse, com aquela tocante simplicidade que há muito conquistou o coração do todos os portugueses - ele é o único educador popular que dá ao povo chão algo mais que vinho e futebol - que Salazar teve sombras e luzes, foi um ditador mas um servidor do Estado, que fez obra e que acreditou, no quadro em que viveu, dar expressão a anseios nacionais. Foi, nessa noite de chuva e demagogia, a única voz ponderada, sensata e didáctica.


Os homens são assim. Há-os senhores, há-os canalhas. Saraiva foi o senhor.

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