22 outubro 2006

Apologia da dureza

Nós, ocidentais, somos de ferro por fora e manteiga por dentro. As ideias de salvação pelos actos, arrependimento, perdão, magnanimidade e transigência, que são eco duma hierarquização das infracções ao código divino - há pecados mortais e veniais, pecadilhos e fraquezas - predispuseram-nos a condescender com comportamentos contrários às expectativas que julgamos infusas em todos os indivíduos e, como tal, indiferentes à sua cultura, religião, etnicidade, género, idade, condição social e escolarização. Os nossos institutos morais e judiciais estão carregados de esperança na assunção do bom-senso, da virtude e da razoabilidade dos indivíduos, mas por todo o lado verificamos que a estatística da traição, do roubo, da mentira, da duplicidade e da reincidência criminosa não presta tributo a essas crenças piedosas.
A minha experiência das pessoas impele-me para as separar em três grupos: as amorais, que se contêm apenas pelo receio da sanção, as imorais, que se comprazem pelo mal alheio, e ss virtuosas, cuja vida é marcada pela preocupação de não atentar contra a felicidade, a dignidade e a propriedade dos outros. Infelizmente, são bem poucos os virtuosos, esgotando-se a maioria das criaturas na macaqueação do bem. Conheço muitos homens "religiosos" que, se não fossem subjugados pela crença na punição dos homens e de Deus, seriam verdadeiros criminosos, daqueles que nos carreiros assaltavam, torturavam, saquevam e assassinavam os indefesos viandantes.
O conhecimento que tenho reunido ao longo dos anos a respeito do Oriente permite-me algum optimismo. No Oriente, os homens são de manteiga por fora e de ferro por dentro. Para eles, o arrependimento é sempre duvidoso, sendo claro que a reincidência criminosa é quase sempre esperada. Dizia Montesquieu que China era governada com um pau de bambú, mas que a justiça, a paz social e os comportamentos individuais e colectivos eram bastante mais benignos que no Ocidente.
No Oriente, as pessoas são implacáveis. Se erras uma vez, não tens uma segunda oportunidade; se roubas, matas e trais uma vez, a sociedade não te dará nova chance. Esta postura permite um aprimoramento individual e uma aceitação quase universal da imiscibilidade entre os bons e os maus actos. Passei ontem por uma livraria onde estava a decorrer um debate pleno de significado amanteigado: "recuperar", "reinserir", "relativizar" e "compreender" enchiam a sala perante o sorriso aquiescente dos circunstantes. Trabalho forçado para presidiários ? Prisão perpétua ? Indiferenciação de penas para adolescentes e adultos ? Crimes de sangue "passionais" não comparáveis a crimes "premeditados" ? Saí dali convencido que aquela gente estava convencida que cumpre à sociedade e ao Estado colocar à cabeça os "direitos dos criminosos" e esquecer as vítimas. Coisas ocidentais !

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