23 setembro 2006

RTP: péssimo serviço público

Durante toda a semana fomos alertados pela RTP 1 para a transmissão de uma série de dois episódios ficcionando os acontecimentos que precipitaram a independência de Timor-Leste, isto é, do período de recenseamento, votação no referendo e ataques das milícias-TNI à população. Foi com alguma expectativa que muitos incautos reservaram algum do seu tempo para assistir ao imaginado documentário. Infelizmente deparámos com uma habitual seriezinha lamechas, bem ao estilo australiano, quer dizer, do pior que se filma no planeta. Aussies, canadianos e americanos - a trilogia fatal, para não dizer "raça superior" - entram-nos pela sala adentro como os grandes heróis. Há de tudo: o bom pai de família que tudo deixa pelo abnegado ideal da ajuda, a menina loura enrubescida por poder aligeirar o mortgage do T0 no subúrbio do Montreal. Ao fim de quatro horas de filme, não chegámos a perceber a fixação da menina em distribuir a granel pins da "cavalaria montada" do Canadá. Mas montada ou não montada, a historieta omitiu o determinante papel que Portugal desempenhou ao longo daquele doloroso processo iniciado no desastroso ano de 1975. Quem não se lembra das horas e horas que Ramos Horta passou sentado à espera que qualquer vice-secretário dos mais ínfimos Estados - muitos dos quais nossos aliados europeus - o recebesse durante dez minutos para lhe comunicar que aguardavam mudanças na boa vontade do senhor Suharto? Quem não se lembra da quase quixotesca campanha do duque de Bragança em prol da liberdade timorense, quando alguns por aqui diziam que "Timor é uma ilha indonésia"? Recordam-se da permanente campanha de Durão Barroso junto de todas as capitais europeias e do departamento de Estado dos EUA? O que fazia a Austrália nessa altura? E a Holanda? E a Inglaterra? E a Nova Zelândia? E os EUA? Todos eles, obcecados pela venda de uma mão cheia de carripanas anti-motim a Jacarta e perseguindo nos lobbies dos hotéis os venais oficiais do regime para obter uma fatia na exploração do petróleo do Mar de Timor. O ministro dos negócios estrangeiros australiano, Sr. Garrett Evans, após retirar a embaixada australiana em Lisboa, celebrou com Ali Alatas o famigerado tratado de partilha dos recursos petrolíferos timorenses, a bordo de um avião! Os eticamente correct gentlemen fizeram juz à carga genética que indelevelmente carregarão até à eternidade; enfim, herdeiros directos de degredados por delito comum.
A RTP1 mais uma vez defraudou as nossas expectativas, insultando os milhões que saíram às ruas para pressionar excelsos embaixadores, não os deixando dormir com o som das buzinas à porta das residências oficiais. Foram os portugueses quem entupiu os faxes da ONU durante dias, numa impressionante manifestação jamais vista neste país, obrigando mesmo os eternos malabaristas de Brasília a tomar uma decisão. Foram dias que uniram o país, numa catarse de todo o lixo que os complexos descolonizadores de pé descalço tinham inculcado durante décadas. A RTP portou-se mal, o que nos leva a questionar a capacidade dos excelentíssimos directores de programação em discernir onde está e onde não está o interesse nacional. Em Camberra não é de certeza!

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