12 setembro 2006

Quem anda a tramar Soares ?


Ontem deixei de lado os negócios, os pesos, a piscina e Saint-Simon e esperei pelo debate. Assisti a duas horas de suplício de Soares. Aquilo foi horrível: nem o danado Damiens teria conseguido resistir a tamanha ordália. Medíocre, de uma ignorância everestiana, confuso, arrogante, mal educado como um cocheiro, de uma desonestidade intelectual roçando a caricatura, egocêntrico, Soares foi digno de comiseração. Já há muito sabia - desde os meus 13 anos, quando li esse monumento de mau português, paralogismos e ignorância vertida de converseta de carvoaria que é o Portugal Amordaçado - que o temor reverencial que envolve Soares é um desses mitos sem pés (sobretudo sem cabeça) a que os portugueses, condicionados pela imprensa prostituída, genuflectem. Pacheco Pereira, que é um senhor, lá o deixou falar, gesticular, berrar. Li-lhe piedade no sorriso e quase dor no olhar. Afinal, aquele homem foi ministro dos negócios estrangeiros, primeiro-ministro e presidente da República. Estou convencido que esta foi a segunda maldade que fizeram a Soares, depois de o haverem empurrado para o desastre das presidenciais. Ocorreu-me maldade análoga que Marcello mandou fazer a um Salazar diminuído em 1969. Não se lembram ? Salazar continuava convencido que era primeiro-ministro. Marcello queria acabar, de vez, com o mal entendido, e permitiu que lhe fizessem uma entrevista. Ontem, Soares foi Salazar. Há coisas que não se fazem às pessoas.

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