21 setembro 2006

Papa ou caricatura ?


Muitos gostariam de ver o Papa na Love-Parade, advogando causas fracturantes, relativista, de compasso e triângulo sobre o avental da loja, dedo em riste na primeira fila da anti-globalização, ou exaltanto o consumismo, a apatia, os ácidos e a alegre despreocupação. Outros, ainda, quereriam um Papa em constante trato filosófico e teológico com aqueles que da Filosofia a têm como mera ocultação do vazio e da teologia um espesso manto de mentiras bordadas pelas famosas "superestruturas" da alienação. E porque não um Papa sociólogo, um Papa cientista, um Papa astrofísico ?
Ora, o Papa é líder de uma confissão religiosa monoteísta, é o bispo de Roma e o garante de quase dois mil anos de história. O Papa acredita que a única verdade é Deus, sustém que Cristo veio à terra anunciar a boa-nova e a salvação; logo, a origem e o fim da história não se podem dissociar do plano e intervenção divinos. Estar com o Papa é compartilhar desta concepção da verdade, da vida e do mundo. Nunca compreendi, pois, a preocupação quase monomaníaca que leva ateus e agnósticos a seguir com tamanha atenção o chefe da Igreja Católica, dele esperando o impensável e prontamente condenado o evidente. Reduziu-se João Paulo II ao preservativo. Durante anos pensou-se que todo o magistério papal se limitava a uma obstinada e quase cruel cruzada contra o direito à felicidade das pessoas singulares. Agora, que está morto, os seus mais encarniçados inimigos transformam-no num modelo comparativo ao novo Papa. João Paulo II era o "homem do mundo, das grandes causas, do diálogo e da compreensão". Bento XVI, ao invés, é o "homem da fronteira, obstinado, ortodoxo e intolerante": o homem da Congregação da Doutrina e da Fé. Se é um "intelectual", tanto pior: é um cínico. Eu, que não fui tocado pela fé, que não recebo sacramentos nem milito na sua Igreja, respeito-o e nele encontro um dos símbolos do Ocidente. Quer queira, quer não, o Ocidente é produto do cristianismo, e desta civilização cristã nasceram os mais fortes travejamentos das nossas ideias antropológicas, éticas e políticas. Sem o querer, ou sem o saber, somos todos cristãos: nos preconceitos como nas estimadas virtudes, nas instituições como nas atitudes. Sei bem que os inimigos do Ocidente, os tais que fazem causa comum com o Islão, gostariam de fazer um Papa à medida do bestiário, uma caricatura: uma mera ideossincrasia, substituível como um líder político, um chefe de governo ou um empregado. O Papa é o Papa: se é mais ou menos culto, mais ou menos "mediático", simpático ou surumbático, é coisa acessória. Afinal, ele próprio o crê, é um instrumento de Deus.

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