18 setembro 2006

Os anti-papistas de sotaina


Espanta-me que a malta do Vaticano II ande tão alvoroçada com uma conferência eminentemente académica que Bento XVI proferiu em Ratisbona, fazendo coro comum com a ralé analfabeta e fanática do bazar na tresleitura de um texto medieval. Não se pede às digníssimas prelaturas que primem pela argúcia filológica, pelo rigor metodológico próprio de historiadores probos ou pela interpretação de um curtíssimo segmento de uma aula proferida pelo Doutor Ratzinger. Habituados ao reducionismo, às banalidades sentimentalóides das bem-aventuranças da prédica dominical, de uma ingenuidade que toca as raias da inconsciência criminosa - bem me lembro das pontes, dos túneis e das fraternidades escusas que estabeleciam com o basismo da teologia "cristã-marxista" - arvoram-se agora em procuradores da sensibilidade do Islão no seio da Igreja Católica. Pouco me afecta o que os senhores padres dizem, mas incomoda-me e ofende-me o que tal demonstração de medo e colaboracionismo exprime no que toca à completa rendição do Ocidente em relação a um mundo que não tolera qualquer reparo, qualquer comparação ou a mais pequena censura. Afinal, Bento XVI tinha razão quando afirmara não haver na União espaço para estados maioritariamente islâmicos ou tributários dessa tradição. Não é a nossa gente, não aceitam a nossa genealogia cultural nem podem conviver com com um longo processo de separação entre a esfera do religioso e a esfera da cidadania. O Islão - o "moderno" como o "antigo", o "laico" como o fundamentalista - não oferece maturidade, maleabilidade e respeitabilidade para aceitar o princípio do contraditório. Se a Europa conheceu um Iluminismo católico (século XVIII), um liberalismo católico (século XIX) e aceitou, no século XX, a soberania popular, o Islão reduz-se ao Islão: nada do que para além dele existe merece ser visto, ponderado, interpretado e discutido. Lembro o desprezo com que Khomeyni respondeu a um jornalista que o foi entrevistar nos arredores de Paris: "não sei nem me interessa saber quem eram Beethoven, Mozart e Hegel". A atitude do Islão é bem pior que a maior intransigência de qualquer apologética católica do século XIX, que ao menos se aproximava, para as combater, de todas as posições tidas como "erradas" ou feridas de heresia. O Islão é absolutamente autista, absolutamente cego e absolutamente surdo. A Igreja católica conseguiu, depois de porfiada agonia, dialogar com a biologia, com a física, com a química, com a astronomia e até com a Filosofia, as belas-artes e as letras. Os Islão não consegue sair do fogo de Deus, que queima (literalmente) os homens e as aventuras do espírito.
Os senhores padres anti-papistas, que tão grande admiração exibem pela "coerência" islâmica, bem poderiam começar por prescindir de todos aqueles adereços de laxismo a que se habituaram, a começar pelo direito de contestar a autoridade que lhes dá emprego.

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