20 setembro 2006

O golpe na Tailândia




Anda por aí tanto disparate na net, nos jornais, rádios e tv's a propósito do golpe de Estado na Tailândia - país que conheço bastante bem - que me ponho a imaginar quantas falsidades, atrevimentos descabelados, amadorismos arrogantes pulularão a propósito de outras questões da agenda internacional. Habitualmente, o português fala de cátedra sobre problemas que desconhece, é pródigo em suposições e teorias ex nihilo e farto nessa arte opinativa pobre a que se chama "análise política". Sem jamais terem saído de Lisboa, temos "especialistas" em questões do Médio Oriente, África, América do Sul e China. Sem conhecimento rudimentar da história, da literatura, da sensibilidade e formas de pensar, jornalistas - a maior praga do mundo moderno - e simples almas que jamais passaram dos roteiros da Lonely Planet exprimem com uma certeza e uma segurança dignas de admiração os mais assertivos julgamentos. Lembro-me sempre do Eça, que atirava com o Bey de Tunes sempre que lhe falavam do Norte de África. Os seus adversários de tertúlia calavam-se, intimidados: sabiam lá o que era um bey, muito menos onde ficava Tunes.
O golpe na Tailândia fora aqui previsto há mais de seis meses. O problema não se prende com o "bushismo" de Taksin, nem com a globalização, nem tão pouco com a questão muçulmana que apenas atinge o extremo sul da Tailândia. É uma velha questão, que remonta ao século XIX. O problema da elite dividida. De um lado, um sector conservador, monárquico à outrance, tendencialmente isolacionista e cioso da manutenção de um status quo cujos caboucos remontam a Rama V e Rama VI. Para muitos tailandeses, a Tailândia pode ser democrática, aristocrática e monárquica: dar o legislativo ao povo, através dos políticos; manter a pirâmide da honra e do respeito confiada às velhas famílias; garantir ao Rei uma função interventiva em situações de emergência. O Rei tailandês é objecto de uma veneração que não conhecemos na Europa desde os tempos de Luís XVI. Tocar no rei, referir-se a ele de forma descortês, é um crime. Mais que chefe do Estado, o rei é a representação do corpo social, a alma do Estado, a fonte da autoridade das instituições políticas e o garante da unidade do país. Não é de estranhar que os golpistas tivessem procurado o conselho do Rei antes de desencadear tão radical iniciativa contra o "partido reformista", aquele que quer uma Tailândia plenamente equiparada às democracias ocidentais. Taksin foi depressa de mais. Desenvolveu um excelente trabalho: modernizou e aliviou o Estado, limpou a polícia de corrupção, desenvolveu implacável luta contra as máfias da droga e do sexo, introduziu reformas na política fiscal, trouxe uns pós de segurança social (ordenado mínimo, pensões de reforma e invalidez, assistência médica gratuita para pobres e deficientes). Mas queria que a Tailândia fosse governada pela classe alta dos negócios, pelos empresários e banqueiros. Ora, os tailandeses tiveram medo que tal democracia se transformasse em plutocracia. Recorreram ao rei. Quando lá estive há dois meses para assistir às gigantescas manifestações que marcaram os 60 anos da coroação do rei, apercebi-me de uma quase suspeição popular em relação a Taksin. Apercebi-me, também, que as pessoas cultas - lá os homens de cultura são fervorosos patriotas - se referiam a Taksin como "o banqueiro". A Tailândia continua a ser uma sociedade em que a "honra" é bem mais importante que a riqueza. Taksin tinha dinheiro, comprava influências e tinha ideias para uma Tailândia capitalista, ocidental, aberta e interventiva no plano internacional. Era uma verdadeira revolução. A Tailândia quer, porém, ser democrática, mas manter a soberania régia; quer respeitar a liberdade religiosa, mas preservar a autoridade moral do clero budista; quer o capitalismo, mas não quer que os negócios colidam com uma vida parlamentar dominada pela aristocracia da "honra". Enfim, a Tailândia continua a ser a maior amiga do Ocidente da região, mas quer continuar a ser o que sempre foi: o único país asiático jamais colonizado.

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