14 setembro 2006

Nunca como hoje tantos homens foram tão felizes


Não gosto de polémicas. Implicam muito trabalho: réplicas, tréplicas, logomaquias, correcções, cedências e negociações. As pessoas são absolutamente livres de dizer o que pensam e sentem. Daí que evite melidrá-las, confrontando-as com o contraditório; daí que seja tão afoito na mobilização de factos e um impenitente desmancha-prazes. Os meus mitos, as minhas ficções-dirigentes são bem pobres. Vivo o dia-a-dia, não quero mudar o mundo nem espero que me entre Mefistófeles ou a sarça ardente pela janela adentro. Como me falha a inteligência - sou um homem comum - não aspiro sequer a ter junto de mim a lareira de Descartes, nem vivo essas noites que Maquiavel teve em San Casciano. Contudo, como não tenho pingo de romantismo, esgrimo com dados, com livros e testemunhos. Falam os românticos de tradição, de valores, de tempos de ouro, de fé e da grandeza dos gigantes. Sabem, ou teriam de saber, que tudo isso foi construído no século XIX. Os homens do passado - os homens comuns como eu - viviam no século XVIII 35 ou 40 anos, tinham a dentadura podre, uma constipação matava-os, acreditavam no demónio e matavam bruxas, eram rudes, brutais e sem pingo de comiseração pelos animais, pelas crianças e pelas mulheres, bebiam um litro de gin por dia, não sabiam ler, dormiam em poçilgas e não tinham tribunais que os defendessem (poupassem a vida) senão mandando-os para o pelourinho, a polé, as galés ou o torturador. As missas estavam cheias ao domingo, é verdade, mas a igreja era um divertimento social onde se trocavam olhares concupiscentes, se compravam e vendiam mercadorias e "peças humanas", se pediam favores, compravam púrpuras e se faziam casamentos ( vide memórias de Saint-Simon e esse outro monumento que são as Cartas do Duque de Leicester para o seu filho). De facto, as pessoas eram diferentes, ao ponto de se lhes recusar até a igualdade ontológica. Aquilo que se idealizou depois nasceu nos romances para meninas prendadas e cavalheiros burgueses do século XIX, a recusa da modernidade nesse doutrinalismo pateta que foi o reaccionarismo e o mau tradicionalismo do último quartel do século XIX - como era má a pseudo-historiografia de Sardinha, como era uma invenção sem pés nem cabeça a nunca existente união entre o trono e o altar ! - e esse finca-pé em recusar qualquer diálogo com os tempos emergentes. Isso foi péssimo para aqueles que queriam ou poderiam ter defendido a tradição histórica ocidental - não o "tradicionalismo" - pois empurrou, à laia de exemplo, os monges companheiros de Mendel a queimar-lhe grande parte da obra, o papa Leão XIII a condenar a vacinação como contrária aos desígnios de Deus e às igrejas preservar instituições hediondas que tão mal fizeram à atmosfera mental e moral europeia. A Europa tinha homens de excepção, brilhantes como astros, cientistas, escritores, sacerdotes e artistas, mas estes eram ilhas num oceano de vulgaridade, brutalidade e insensibilidade. Eu creio o contrário: se o homem veio do macaco, não caíu da graça divina: subiu em graça. Vivemos hoje - os homens comuns como eu - com maior possibilidades. Se não somos dignos delas, o problema é de cada um e não de um inquisidor, de um pregador jacobita, de um quaker ou de um rabi. Os "outros" vivem, ainda, aos pés de um fanático que do alto do magistério da mesquita determina quem deve viver, quem deve morrer, como deve morrer e como fruir dos prazeres do paraíso. É por isso que sou ocidental. Acredito na Liberdade e no futuro dos homens, mesmo que os estime violentos, maldosos, velhacos e impróprios para reivindicarem a ilustre pedatura de feitos à imagem e semelhança de Deus.

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