10 setembro 2006

Nicolas Sarkozy: o francês lúcido

O candidato da direita às eleições presidenciais francesas concedeu uma entrevista-bomba antes de se deslocar a Nova Iorque para participar nas cerimónias evocativas do 11 de Setembro. Coisa rara num país tomado de profundo sonambulismo, reduzido à expressão mais patética, cuja língua poucos estudam, cuja literatura já ninguém lê, afastado das correntes do pensamento, sensibilidade e criatividade ocidentais, refém de glórias pretéritas. A França é um caso perdido. Julga-se o centro da vida mundial, mas ninguém lhe concede qualquer crédito. Escorraçada da África central e ocidental, move uma guerra sem quartel aos interesses comerciais e esfera de influência cultural e linguística portuguesa em Cabo-Verde, Angola e Guiné-Bissau. Escorraçada do Médio Oriente, dá cobertura e dignidade a regimes directamente associados ao terrorismo. No fundo, nada disto é novo. A França, por egoísmo, sempre esteve ao lado dos inimigos do Ocidente: de Francisco I - que se aliou aos turcos - a Luís XIV, que tomou o partido dos adversários de Roma nos últimos capítulos da Guerra dos 30 Anos, foi durante o século XX a filha dilecta e procuradora accionista dos interesses do comunismo, optando por Moscovo, Pequim, Hanói e Phnom Penh. Hoje, joga no tabuleiro do islamismo, sentando-se no siège à deux em companhias bem pouco recomendáveis.
Sarkozy contraria essa tendência; ou antes, reedita a velha e quase esquecida "via inglesa da prosperidade francesa" que o centralismo autoritário dos capetos, o expansionismo militarista revolucionário e o estreito nacionalismo gauleses tentaram por todas as formas fazer esquecer. Lembramos que à morte de Luís XIV o Estado estava falido, as indústrias deprimidas, o comércio exterior reduzido a níveis quase medievais, a fome, a errância e a vagabundagem instalados. Quem salvou a França da bancarrota ? Um inglês, John Law. O que fez ? A convite do Regente Filipe de Orleans, lançou mão de uma reforma profunda - hoje chamar-lhe-iam "ultra-liberal - que reduziu os gastos de defesa, despediu milhares de funcionários da coroa, reduziu a tributação fiscal, incentivou as exporações e a actividade comercial (companhias do Ocidente-Luisiana e Companhia das Indias) e lançou as malhas da actividade bancária moderna. A França recuperou e no segundo quartel de Setecentos era, de novo, um país próspero. O influxo inglês foi, aliás, determinante nesse brilhante movimento de recuperação, não se esgotando na adopção de práticas económicas, financeiras e fiscais importadas do outro lado do canal. O reformismo francês do Iluminismo (de Montesquieu, de Voltaire e, até, do grande Saint-Simon, cujos 20 volumes de memórias sempre recomendo) poderia ter impedido, se tivesse triunfado, essa maldita revolução que as Reflexões sobre a Revolução em França tão bem captaram nas falácias e desmandos. A França seguiu outro caminho: escolheu o liberalismo estatista, intervencionista, centralista. Resultado ? Abriu as portas ao socialismo, à dependência, ao subsidiarismo. Essa pulsão autoritária deixou o país, hoje uma sombra do que foi, num atoleiro onde teimosamente quer permanecer em nome do reclamado "modelo social europeu". Sarkozy quer passar por cima disso tudo. Quer uma França competitiva, capitalista e aberta aos sinais e tendências do nosso tempo. Contra ele estarão certamente os fetichistas do Estado-pai, os tribalistas e os amantes do pão e circo. Mas a França não pode esperar muito mais. Ou aceita, agora, o "modelo inglês", ou morre.

Sem comentários: