15 setembro 2006

Mais deputados, não !


A segunda figura da hierarquia do Estado concede hoje uma interessante entrevista ao DN, na qual aborda temas de relevante importância para o funcionameto da Assembleia da República, cuja designação detesto, pois devia ser Assembleia Nacional na tradição dos parlamentos liberais de Oitocentos. Jaime Gama será, decerto - como homem culto e inteligente - das poucas figuras de cúpula do regime com plena autonomia intelectual para poder avaliar o estado de descrédito da classe política e dos partidos, pelo que me espantou o tom quase mortiço das opiniões ali plasmadas. O problema do regime representativo é mais o da falta de classe da classe política que do maior ou menor número de assalariados públicos ali sentados. O regime - todo o regime, da esquerda à direita com representantes parlamentares - precisa rever o critério de constituição das listas. A maioria dos deputados que ali vencem não retira nem acrescenta nada aos cadeirões: gente nula, quase iletrada, de um seguidismo e de uma "disciplina partidária" que envergonharia o Pai Tomás, especialistas em generalidades e culatras, são alvo da irrisão e do escárnio da maioria dos portugueses. Vivem numa rodoma, estocadas e desafios de insignificante wrestling que nada dizem aos cidadãos. É por essa e por outras razões que, cada vez mais, nos sentimos apenas cidadãos no dia das eleições e súbditos durante os quatro anos da legislatura. A vida das democracias depende da qualidade dos cidadãos, mas depende, e de que maneira, do desembaraço, da qualidade e preparação dos senhores deputados. A substituição das listas por círculos uninominais poderia, até, estragar o ambiente, sabendo quão atreitos são os nossos lúcidos concidadãos em elevar aos pedestais gente inclassificável saída directamente dos estúdios televisivos, dos estádios, das arenas e das revistas "sociais" do jet-3 nativol. Uma Assembleia Nacional com metado dos deputados - mas mais qualificados e menos servis - poderia resolver grande parte da perda de prestígio do hemiciclo. Eu pediria mais: a haver mais representantes do povo português, esses deveriam encontrar sede numa câmara alta (Senado), onde homens altamente qualificados poderiam estudar, debater e decidir na especialidade questões para as quais os senhores deputados não têm preparação e coturno.

Sem comentários: