28 setembro 2006

Livros malditos: no inferno das bibliotecas (2)


O Triunfo dos Porcos (1945) é a mais bem urdida fábula política escrita no século XX e um devastador libelo contra as crenças, certezas e mitos mobilizadores propagandísticos da Revolução. Se uma leitura desatenta não deixa de estabelecer uma flagrante sobreposição da tecitura actancial, personagens e peripécias ao quadro europeu da época, um segundo nível metatextual remete-nos para o tempo longo da história das ideias políticas ocidentais, numa ácida e desencantada autópsia do Iluminismo, de Rousseau, Marx, Lénine e Estaline; sobressai, também, a evidente impossibilidade do homem se desvincular da sua natureza e passado. A edição da obra foi proibida em plena guerra mundial, com invocação da amizade anglo-soviética. Depois, os EUA proibiram-na, considerando-a portadora de ideias comunistas (!). No universo concentracionário comunista, foi banida e circulou clandestinamente em cópias artesanais. Hoje, é proibida em todo o mundo muçulmano, por apresentar como protagonistas destacados porcos, tidos como impuros aos olhos do Islão.

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