02 setembro 2006

Lembranças socialistas

Para os mais velhos, ou aqueles que preservam a memória da "via portuguesa para a pelintrice" - vulgo economia socialista - aqui deixo quatro conceitos muito em voga na geringonça do imediato pós-gonçalvismo. O país estava de rastos, com 26% de inflação, 15% de desempregados, sem nada exportar, com metade do aparelho produtivo debatendo-se pela sobrevivência, com metade dos hotéis às moscas e os outros ocupados pelos desgraçados da descolonização, pelo que o que sobrou da bacanal revolucionária foi a pelintrice, a mais vil, misturada com azedume, frustração e inveja.
Aqui vão os quatro lugares-comuns muito ouvidos nesses tempos de miserabilismo:
- O "pluriemprego": havia uma terminante proibição em acumular empregos, esse vício burguês de "roubar" emprego aos mais "desfavorecidos". O médico não podia "acumular", pois a D.ª Flávia, que tinha a terceira classe, estava desempregada.
- A "segunda casa": era moralmente reprimido possuir segunda casa na área da residência permanente, mas aceitava-se uma segunda casa na "terra", ou na "praia". O destino da "segunda casa", vulgarmente "roubada" pelas "mais valias" seria, pois, e justamente, a ocupação pelos "mais carenciados", aqueles que a haviam construído com o "suor do seu trabalho".
- Os "açambarcadores": todo o retalhista era um potencial sabotador. Sim, até guardavam os bens escassos em armazéns para retirar o maior lucro possível das necessidades "básicas" do povo. Um empresário não podia gerir stocks, pois esse princípio elementar da actividade comercial era encarado como um acto de hostilidade.
- Os "intermediários": os responsáveis pela carestia, pelo disparar dos preços, pelas prateleiras vazias e pela sabotagem eram, para além dos revendedores, os intermediários. Uma sã economia socialista poria em confronto mercado e consumo, mas no "capitalismo explorador" uns poucos "parasitas" viviam da miséria dos camponeses e das necessidades dos consumidores.

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