06 setembro 2006

Fora com o futebol, viva Eduardo Prado Coelho !


Confesso não fazer Prado Coelho parte das minhas leituras, sempre apressadas, por essa massa de matéria orgânica em decomposição e oxidação que são os jornais. Prado Coelho irritou-me durante anos. Considerava-o poseur, entediante por vezes até à náusea, com todos os tiques do francesismo intelectualista nativo "gauche". Só nos falámos uma vez, logo para discutir à mesa sobre a Frida Kahlo, mas nos últimos dias surpreendeu-me. Comprei o brilhante Nacional e Transmissível e rendi-me: é um belo álbum de coisas portuguesas, umas mitificadas, outras a que não prestamos qualquer atenção, mas que são nossas, adereços do nosso carácter colectivo cheio de sombras e qualidades.
Mas não foi sobre pastéis de Belém, bacalhau e Fernando Pessoa que EPC escreveu ontem no Público. Foi sobre essa praga infecta e nauseabunda que dá pelo nome de futebol. Um texto justiceiro, cheio de coragem que corta até ao osso essa impostura monumental que nos tiraniza da alvorada à madrugada. Uma falange de mentecaptos, analfabetos e pequenos mafiosos tomou de assalto o tempo de vigilia dos portugueses, domina os telejornais, conspurca a imprensa escrita, monopoliza as rádios, as conversas, os tempos-livres e as preocupações de milhões dos nossos concidadãos. Anda tudo em alvoroço com a crónica de EPC, até alguns homens ditos "de cultura" que não resistem ao prazer canalha do "esférico", das "chicotadas psicológicas" e dos "apitos dourados". Têm sido anos a fio de ditadura - venerada, temida e aceite por todos nós - do "Bigodes", do Velentim, do Pinto da Costa, do homem das cervejas, do Pôncio-qualquer-coisa e do Vieira. Agora, que chegámos ao grau ZERO da dignidade, temos de aguentar telejornais de hora e meia ouvindo uma criatura de nome Fiuza, que mal sabe alinhavar duas ideias, com um português de vão de escada, falar sobre um tal Mateus. Não sei, não quero saber quem é o tal Mateus e não é a direcção da SIC, nem a TVI e a RTP que me vão impor tal tema. Há medo de dizer alto e bom som aquilo que muitos pensam mas raros exprimem sob pena de banimento. O futebol é um desses territórios proibidos. Chegou a hora de colocar essa coisa malcheirosa no lugar que lhe compete. Por isso, fico grato a Prado Coelho por partir a montra dessa latrina dourada.

Sem comentários: