05 setembro 2006

Ficam furiosos, mas calam


Um dos meus gostos predilectos: envolver-me num círculo de convivas - sobretudo naqueles em que transpiram as cumplicidades esquivas de partido, amiguismo, futebolismo, avental, água benta, excelentes meios para uma conversa lucrativa, com empregos à mistura - e lançar uma saraivada de "orgãos de Estaline". O efeito é o de um balde de àgua [das pedras, gaseificada] naquelas cabecinhas ocas e medíocres. O círculo dissolve-se em vinte segundos, cada qual pretextando uma ida à casa de banho, um telefonema inadiável, uma criancinha doente em casa, um dentista ou, sem outro argumento, um croquete na mesa dos comes e bebes. Os portugueses são, na sua quase generalidade, incapazes de argumentar. Ou antes, aqueles portugueses que se julgam donos do Estado, das instituições, da democracia, da opinião pública (aquela que se publica) e do orçamento colhido dos bolsos dos contribuintes. Esses "portugueses" - sempre os mesmos 100.000, ou seja, a soma dos leitores do Público e do Expresso - têm absoluta consciência da sua precaridade, insuficiência, indigência profissional e inutilidade. São donos disto, pronto. Mais não lhes interessa. Enquanto pingar, lá estão a servir o "interesse público". Mal deixa de pingar, mudam de partido e de regime.

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