01 setembro 2006

A Festa do Avante


Abre hoje a quermesse anual de um certo jornal que já ninguém consegue ler sem bocejar, cabecear e cair nos braços de Morfeu. Um sonho, ou antes, uma máquina do tempo, mas sem a encantadora beleza da sépia dos daguerreótipos. O Avante é um daqueles deliciosos mortos-vivos que emparceira com o Cavaleiro da Anunciada, O Consciência Nacional, Os Ecos da Matriz, O Notícias de Fátima e a Acção Socialista no frontão do túmulo do jornalismo sem leitores. O Avante é, sem tirar nem por, o Partido Comunista na sua arrastada agonia, digna da maior comiseração: uma ideologia velha, contemporânea da máquina a vapor, das escalfetas e das ceroulas; um eleitorado marginal, residual e reaccionário, devoto e imobilista; uma visão do mundo vertida dos besabafos da ginginha do Rossio. Já lá não vão os caçadores de lugares no governo, na administração central e nas empresas nacionalizadas, deles. Aquilo só se presta às ambições dos Napoleões de Nothinghill das juntas de freguesia, aos amedrontados com as listas de excedentes da função pública e aos protestatários que ainda não tiveram coragem para saltar ao mar revolto onde navega a balsa de Louçã e de Rosas. Já lá não vão - morreram, coitados - os representantes do "internacionalismo proletário", agora limitado aos paraísos onde ninguém quer ir ou de onde ninguém vem: a Coreia do Norte, a Cuba do irmão de Ubu e o Laos. Já não há pão e vinho para todos, mais os badaladeiros, as cosmonautas e as ginastas da Ónião Sóviética. Agora paga-se e consome-se, duas palavras ausentes daquele brilhante modelo económico que transformou a Ónião Soviética na maior fraude de todos os tempos. Mas para além dos secos e molhados há tempo para a liturgia. Vão ser lançadas duas novas hagiografias de Cunhal: de João Céu e Silva, "Álvaro Cunhal e as mulheres que tomaram partido", e o livro de Urbano Tavares Rodrigues "É tempo de começar a falar de Álvaro Cunhal". Fé precisa-se, mais ladainhas e procissões. Como são patuscos estes comunistas.

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