27 setembro 2006

Desenterrar mortos


Alfonso Guerra, que veio ontem a Lisboa a convite do Instituto Cervantes para inaugurar uma exposição sobre os 70 anos da guerra de Espanha, voltou a tocar na delicada controvérsia sobre a reabertura de feridas antigas. Os socialistas espanhóis afirmam querer reparar os derrotados, os injustiçados e a sociedade espanhola por 39 anos de ditadura franquista. Em primeiro ligar, apresenta-se-me pouco inteligente comemorar 70 anos do que quer que seja. Habitualmente, comemoram-se 10, 25, 50, 75 e 100 anos, pelo que forçar celebrações em data despida de qualquer significado parece insinuar má-fé ou uma flagrante falta de inteligência. Se os socialistas pretendem fazer tábua-rasa das impressivas marcas da era franquista, retirando o nome do Caudilho das avenidas e praças, apeando-lhe as estátuas equestres e até as mais humildes placas de mármore, numa feroz campanha revisionista que só encontrará paralelo no sepultamento do reinado de Akenathon às mãos dos seus vingativos sucessores, estão a demonstrar uma imperícia infantil ao reabrirem as suturas do campo derrotado. Mata-se Franco da memória, retiram-se os comunistas da vala comum e dá-se-lhes voz. Contraditório. Esquecer-se-ão os socialistas que o desiderato da era de Franco não se encontra tanto na grandiosidade dos Ministérios, dos bairros sociais, nos portos, aeroportos, estações de combóios, tribunais, escolas, universidades, hospitais, barragens, estaleiros navais, canais, pontes, túneis, ,quarteis, jardins públicos, museus, bibliotecas, laboratórios, igrejas e catedrais que se construíram por toda a Espanha, dando-lhe nova vida, riqueza e potencial, mas no cerne do próprio Estado. Para acabar de vez com a memória de Franco importa abolir a monarquia, apear Juan Carlos do trono e conceder a independência ao País Basco e à Catalunha. Enfim, acabar de vez com Franco implica acabar de vez com a Espanha. O ódio dos homens não conhece tréguas; a estupidez idem.

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