13 setembro 2006

Da quase inutilidade da Filosofia

Os nossos caros e sempre atentamente lidos confrades do Pasquim da Reacção e do Povo recusam aceitar os termos com que caracterizei a superioridade moral do Ocidente no conflito de que todos somos espectadores. Ora, da leitura das suas sempre inteligentes prestações, retiro quatro conclusões:
1) O Ocidente morreu e em sua substituição nasceu uma "civilização do capitalismo", indiferente a Deus, materialista, hedonista e sem "valores";
2) O homem contemporâneo não transporta qualquer sentido para a sua vida: vive obnubilado, cego e insensível a qualquer outra dimensão "superior"; em suma, vive tiranizado pelo prazer;
3) O homem contemporâneo é vítima do vazio e da ausência de Deus, valorizando tanto a vida que até procura no suicídio e na cultura da morte o apaziguamento para essa dor de viver;
4) O homem contemporâneo é predador - da natureza e dos outros homens - indo até ao ponto de aceitar a cisão da personalidade: em nome da liberdade rapta, tortura, bombardeia e mata.
Como não sou nem filósofo nem teólogo, não posso esgrimir montado sobre a ontologia e a metafísica (i.e., "seres não-físicos existentes apesar da sua imaterialidade"), mas posso invocar dois níveis de cuja justaposição pode nascer a impugnação de tais argumentos: as ideias e a história. Não há ideias infinitas. As ideias são todas produto da cultura e da inteligência do homem, pelo que são, quando muito, transfinitas; isto é, estão tão presentes na nossa relação com as coisas e connosco que as julgamos imutáveis, intemporais. É a ilusão do infinito. Assim, como ocidentais, temos em Aristóteles, em Platão, em S. Tomás a "nossa ilusão" de ordem antecedendo a nossa mimésis. Julgar que as ideias vivem fora dos homens e do tempo, sem intervenção antrópica, é uma questão de fé e não de razão. Durante um milénio, a relação do conhecimento com as coisas era intermediada pelo discurso de Deus, depois, pelo discurso da razão. Com a crise do "mundo moderno" - essas sucessivas rupturas epistemológicas que instalaram a crise da verdade e a incerteza - somos confrontados com a necessidade de reavaliar o lugar e o papel da filosofia. A Filosofia é hoje um género literário: assistemática, biográfica, ensaística. Perdida a presunção de atingir a essencialidade, dominamos pelo menos o acidental e a nossa certeza - sempre transitória - vai descobrindo as conexões, as "leis" e regularidades. Se as metafísicas estão em franco apagamento (incluindo o racionalismo = crença na razão), subsistem vias, eventualmente menos nobres à luz da tradição ocidental, mas que se mostraram bem eficientes noutras galáxias culturais. Lembro que o "Céu vazio" dos chineses não implica a inexistência de uma cosmogonia, de uma sólida teoria axiológica, de uma teoria do conhecimento bem mais argumentativa que a nossa e de uma moral que fez, pelo menos até ao século XVIII, o fascínio dos filósofos europeus.
Pois bem, tenho para mim que se a Filosofia e a religião positiva, enquanto fundamento da nossa civilização, estão condenadas enquanto instituições, o mesmo não acontece com a capacidade de pensar e com a vivência do sagrado, ambas atributos exclusivos do ser humano. O Ocidente descobriu, afinal, a Liberdade ao desanexar o sagrado da esfera social e política - do controlo sobre os homens - e ao abandonar a esperança, sempre baldada, de explicar as coisas a partir de instâncias fora das coisas. A nossa civilização funciona pois reconhece a complexidade das coisas, porque não as quer domesticar e reduzir a esquemas simplificadores, porque não quer emitir juízo sobre aquilo que está para além da capacidade de pensar e compreender. Sei que o vazio de certeza mete medo a muita gente, mas tal vazio não implica necessariamente amoralidade, ausência de lei e de ordem, subjugação à natureza e às pulsões, abandono fatalista e rendição. A Liberdade é um risco permanente, o contrato entre homens que querem ser livres e aspiram à felicidade uma árdua tarimba em que intervêm a educação, a realização individual e o respeito pelo próximo. Não me parece que os ocidentais sejam amorais, egoístas e comezinhos. Antes pelo contrário, ao libertarem-se são mais exigentes, mais responsáveis e mais homens.

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