15 setembro 2006

Cartas de Estalinegrado


"Tenho procurado Deus no troar dos canhões, em todas as casas destruídas, em todos os cantos, junto de todos os camaradas, quando estou acocorado nos esconderijos, até O procurei no céu... E Deus não respondeu quando o meu coração gritou por Ele. As casas estavam destruídas, os meus camaradas eram tão corajosos ou tão cobardes como eu, na terra havia fome e assassínios, no céu havia bombas e havia fogo, só não havia Deus."No Dragoscópio.
Contudo, caro Dragão, a Madonna foi a única esperança daqueles pobres soldados empurrados para o inferno, aí emparedados e sacrificados por um estratega demente que levou a Alemanha e a nata da juventude europeia para o abismo. A fé-menina, a única que ainda me infunde respeito, sem dogmas, sem teólogos e malabaristas que juntam pistis e razão, faz parte da natureza do homem. É a mesma que faz um moribundo agarrar-se à esperança de se salvar, uma mãe pedir pela vida do filho, um povo pedir a sobrevivência quando lhe entra pela terra uma horda de criminosos. Como já só sou deísta e Dele só consigo encontrar traço em fragmentos de verdadeira grandeza, não me posso pronunciar. Lembro, contudo, se Deus estava a dormir, outros fizeram por ele o milagre de manter a decência no meio dessa devastação lunar: os médicos, os enfermeiros, os pilotos que noite e dia carregaram feridos, os capelães que davam o último conforto aos agonizantes. Talvez esse Deus fosse o último que me resta: o Deus da decência.

Sem comentários: