29 agosto 2006

Serão as crianças fascistas ?



Lembram-se dos livrinhos da Anita (aliás, Martine, aliás Martynka), aquela menina perfeitinha de olhos verdes, cabelo louro-arruivado e vestida de boneca ? Lembram-se daquele universo de total assepsia criado pelo belga Gilbert Delahaye, também chefe de atelier da prodigiosa máquina de sonhos que foi a Casterman ? Paredes alvas, guloseimas, cães e gatos de peluche, frutos prodigiosos, relva acetinada, tudo envolto por afectos, sorrisos, aventuras e tropelias anódinas ? Pois bem, a Casterman produziu, repetindo, décadas a fio, o cânone da "arte ariana" saído dos cadernos do Doutor Joseph Goebbels. Com Delahaye trabalharam afanosamente o genial Georges Rémi, pai de Tintin, Jacques Martin, criador de Alix e o fantástico Edgar P. Jacobs (aliás Edgard Félix Pierre Jacobs ), mago da ópera de papel. Ora, Jacques Martin foi um fascista entusiasta, Rémi um rexista de primeiras-águas e Jacobs um fiel colaborador das autoridades alemãs de ocupação.
Não querendo entrar pela difícil efabulação de uma psicanálise dos contos de fadas e da literatura dita infantil, que Bruno Bettelheim com desenvoltura sugeriu, não posso deixar de apontar a clara identificação da estética fascista com o universo infanto-juvenil. Os jovens pedem o fantástico, ambicionam a aventura, têm o condor de inventar o lúdico nas coisas mais comezinhas. O esquema actancial da literatura "para jovens" é minimalista: ao herói opõe-se o vilão, ao branco o preto, ao bem o mal. Do choque dos contrários - onde sempre triunfa o bem - nasce a paz e a eternidade. Sim, as criança e os jovens são fascistas. É o tempo, a maturidade, a conformação à variação, à relatividade das coisas, ao "contrato social" e à banalidade que acaba por mudá-las. Os regimes fascistas - uns mais educadinhos, mais respeitadores da autoridade dos pais (na Itália até respeitou o Papa e a Monarquia) - trouxeram para a acção governativa essa transbordante imaginação juvenil. Li há tempos as memórias de um diplomata da Wilhelmstrasse e retive, estupefacto, a sensação que no regime de Hitler as decisões partiam de verdadeiros enredos dignos de Scaramouche: tudo suposições nascidas à mesa do pequeno almoço, umas sem pés nem cabeça, outras de ânimo leve, produto de um repente ou de uma piada. As crianças, como Émile, querem-se livres, mas não se lhes pode dar poder.

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