14 agosto 2006

Salazar e Caetano


O amigo Misantropo proporciona-nos hoje mais um naco de saborosa prosa . O tema é delicado, controverso e tem-se prestado às mais variadas abordagens. O tema é um espinho para a Direita portuguesa e faz as delícias das esquerdas: o carácter de Marcelo Caetano, a queda de Salazar e o anúncio do fim do Estado Novo. A Direita divide-se: Salazar devia ter saído a tempo; Salazar devia ter ficado, como ficou, até ao último momento de lucidez; Salazar devia ter deixado um outro sucessor; Caetano não foi capaz de operar a transição. Por seu turno, a esquerda oferece doutrina mais estabilizada: Caetano não podia manter o regime; Caetano foi sendo destruído pelos "ultras do regime"; Caetano vivia na ilusão de uma democratização sem por em causa a existência do Estado Novo. Em cada uma destas proposições há elementos de verdade e de mentira.
Vejamos as verdadeiras, aquelas que por manifesta evidência não são sequer passíveis de contestação: Salazar governou tempo demais, Salazar era um grande estadista, o Estado Novo era inviável sem Salazar. Se, porém, nos abeirarmos das restantes proposições, a imparcialidade desce de nível e cai-se no domínio de velhas e inextinguíveis paixões: o melhor sucessor de Salazar; o peso da gerontocracia do regime; a impossibilidade da transição. A nosso ver, o Estado Novo não é uno no largo termo da sua existência, mas é garantido pela personalidade de Salazar. Se Salazar saísse de cena em 1945, o Estado Novo teria soçobrado. Se Salazar tivesse sido afastado em 1958, o Estado Novo não lhe sobreviveria. Se Salazar tivesse caído em 1961, os militares teriam feito o que fizeram em 1974 e 75, ou seja, teriam abandonado o Ultramar com a mesma imperícia criminosa. É verdade que Marcelo, um brilhante académico, possuia grandes qualidades intelectuais. Era um homem de cultura, mas um ambicioso, daqueles que encontramos em todos os regimes. Marcelo teria sido tão bom no Estado Novo como o seria na República, na Monarquia Constitucional ou no actual regime. Vivia segundo a lógica inerente a cada regime: ter a sua clientela, o seu partido, gerir influências. Salazar era um eremita, um autoritário: tinha uma ideia de Portugal, pensava estar a dar rosto à permanência daquelas linhas de continuidade que qualquer historiador minimamente avisado pode lobrigar e, como tal, não sentia mais que uma enorme responsabilidade. Pessimista e bom conhecedor do carácter português, sabia que o dilúvio viria logo que saísse de cena. Aguentou, creio sem grande esperança, como um bombeiro que se mantém na frente de um incêndio esperando que o mar de fogo o devore. Pergunta: havia alternativa ? Creio que não, pois os regimes em Portugal - todos, democráticos ou autoritários - têm por hábito cair de podre antes de alguém os atirar para as páginas da História.
O argumento - cheio de verdade e cheio de mentira - habitualmente invocado pelas esquerdas é o da "gerontocracia". Ora, sejamos honestos, havia alguns velhotes que mantinham o catálogo dos anos 30 e 40, mas havia muitos jovens, tantos ou mais que os gerontes. Os governos de Salazar e Marcelo são marcadamente governos de jovens, homens na casa dos trinta e muitos, quarenta e tal anos. Quando comparados com os governos actuais, maioritariamente entregues a homens de meia-idade (ou até ex-reformados), Salazar e Caetano ganham aos pontos. O que se pretende esconder é outra coisa: pretende-se fazer crer não existir qualquer vínculo de continuidade entre a classe política do Estado Novo e a desta Terceira República. Mas há. Que eu saiba, nenhuma das jovens promessas de Salazar e Caetano deixou de servir o actual regime: Adriano Moreira, Veiga Simão, Mota Amaral, Sá Carneiro, Freitas do Amaral, Silpa Pinto, Medina Carreira, João Salgueiro, Sousa Franco, Pintassilgo e tantos, tantos outros que tornaria fastidioso elencar. Olhando para o estilo, para as ideias e discurso de Caetano, dir-se-ia estar um pouco por toda parte: no PP, no PSD e no PS. No fundo, Marcelo era o Portugal da burguesia, o Portugal da Av.ª de Roma, de Cascais, da casa de verão, dos afilhados e amigos a quem se pode fazer um favor. O Portugal de Marcelo não tinha asas de sonho nem obstinações, nem teimosias. Era o que somos, assim, manobristas, indecisos, incapazes de dizer sim e não. Em suma, o Portugal que todos gostamos de ser.

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