18 agosto 2006

Onde estão os amigos de Marcello ?


O dia de ontem passou lento, arrastando-se no vagar das horas de férias, mas sem praia; logo sem desculpas. Esperei todo o dia que os amigos de Marcello, aqueles que educou, promoveu e colocou emitissem um som, exibissem um gesto de agradecimento, de saudade e fidelidade. Nada. Todos, ministros, secretários de Estado, catedráticos, jornalistas, homens de negócios, generais do antes e depois do 25, calaram, esconderam ou invocaram ausência. Aliás, por que razão esperaria o contrário num país de proverbiais cobardes, grandes senhores sem palavra nem honra, carreiristas sem sonho e cidadãos sem pinga de dignidade cívica ? Ainda estou a sair desta tardia, ingénua e casmurra juventude que teima em ficar. Marcello ficou lá longe, no Brasil. Não quis mais voltar, nem vivo nem morto. Compreendo-o muito bem. Com todas as dúvidas que mantenho a propósito do homem como político, da sua capacidade para mudar um regime que não queria mudar, ou para vergar uma oposição que de facto não existia senão nas casernas, entre a sueca e o jogo de damas, não deixo de lhe reconhecer esse valor, hoje tão pouco cotado na bolsa dos valores, a que se chama patriotismo. Marcello acreditou que Portugal tinha uma oportunidade de sair do problema africano sem se desagregar, sem se humilhar e mergulhar no caos, como veio a acontecer com os 2 milhões de mortos de Angola, o milhão e meio de Moçambique e os 300.000 chacinados de Timor. O caminho era estreito. Não conseguiu convencer um regime caduco que os anos 30 e 40 tinham passado, mas não teve o apoio daqueles, que dizendo-se abertos ao mundo contemporâneo - o nosso mundo, onde já estávamos, na OTAN, na EFTA e em vias de aceder à CEE - o apoiassem. Culpa dos "ultras", é certo, mas culpa, sobretudo, dos delfins e benjamins da alta burguesia que tudo tiveram na mão e foram tolhidos pela maldita cobardia portuguesa. Marcello morreu lá longe, nenhum dos seus amigos, sobrinhos, afilhados e promovidos quis disso saber. Coisas portuguesas.

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