27 agosto 2006

O povo suicida

Estive durante três anos no Alentejo, entre 1983 e 1987, cumprindo serviço militar num regimento de infantaria. Conheci muitos naturais e cedo me apercebi que por detrás daquela cativante lhaneza, animada por uma inteligência sem artifício, resposta pronta e brincalhona, coração grande e modos pacíficos - que tão grande contraste apresentam com a rusticidade das gentes do norte - morava uma profunda pulsão mortal. Ontem telefonaram-me. Era a irmã de um antigo camarada. Disse-me que entre os papéis do António encontrara um bilhete com uma enigmática nota: "se um dia partir telefonem ao Miguel". Revira-o há quatro ou cinco anos, ali pela baixa, na companhia da mulher. Estava radiante e projectava futuríveis, todos risonhos. Matou-se. Ninguém sabe a razão. A minha vida tem sido a de um espectador que vai assistindo à morte de amigos queridos, alguns bem mais úteis e interessantes que eu. Não esperava que o António morresse assim. Era de uma energia e de uma impetuosidade cativantes. Mas era alentejano. O Alentejo é a única parcela do território nacional que verdadeiramente amo. Não tenho quaisquer ligações com a "terra", pois que a minha ficou para trás, lá longe no tempo, em Moçambique, mas gosto do Alentejo, onde o homem é um "presente ausente" e onde à vista daquela imensa planície pensamos viver num país grande.
Curioso, agora que penso naqueles anos de marchas, exercícios constantes e formaturas. Por vezes, ao fim do dia, passeando pelos campos - sempre gostei da solidão - sentia a fugacidade da vida, a quase inutilidade da vida. Era o Alentejo, a grandeza esmagadora da natureza sobre o indivíduo.

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