02 agosto 2006

O Lisbollah: flora intestinal do capitalismo


O Lisbollah é um estado de espírito da burguesia ociosa. Filho de família católica progressista criada à sombra de Salazar, andou, repetiu, trepetiu anos na universidade. Entre o activismo político daquele marginalismo aplaudido que dava colaborações em jornais - o dos admiradores das vias extremistas para o socialismo que até consideravam o PC "social-fascista" - as andanças pelo Bairro Alto, o charro e as idas a Nova Iorque e Londres, cansou-se dos grupúsculos e fez-se partido. Não tendo exercido qualquer função tributada até aos 40, vence pelos contribuintes em S. Bento ou em Estrasburgo, amesenda-se nos banquetes da "democracia burguesa e capitalista" e faz o périplo mundial pelos pobrezinhos. Acamarada com tudo o que imagina o novo "bom selvagem", venera Castro, Chavéz, Morales, diz libertador quando dizemos terrorista, diz liberdade ao que chamamos tirania, abomina as igrejas mas respeita os minaretes, é ateu mas refere-se a Maomé como "o Profeta", considera as migrações europeias colonização, mas o inverso um bem, eriça-se-lhe o pêlo quando ouve a palavra Ocidente mas derranca-se ante qualquer colar de búzios ou qualquer orixá. O protestarismo destes ricos não faz mossa ao "sistema": no fundo, estes Lisbollahs são uma espécie de flora intestinal necessária ao metabolismo de um sistema económico que, por tanto consumir, acabou por fabricar as indústrias de efluentes, reciclagem e reaproveitamento da sociedade de consumo: o lixo passou a ser uma riqueza. Adolescentes retardados, já de barriga e careca, cara empergaminhada, inebriam-se com as causas fracturantes e vendem o kit completo da anti-globalização, da alter-globalização, do Fórum Social, dos impactos ambientais, das "espiritualidades" alternativas e demais mitologias new age. São rapazes de 40 anos a brincarem às revoluções. Como dizia a avó de uma amiga minha francesa ao assistir em directo, pela tv, ao Maio de 68: "ils faisaient mieux de rester chez eux".

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