12 agosto 2006

Nostalgia otomana: o Líbano não existe

Tal como sucedeu com os balcãs e com todo o Mitteleuropa, a desorganização do xadrez regional do Médio Oriente tem uma causa: o decreto de extinção do império estabilizador que permitia a coabitação de povos e religiões potencialmente antagonistas, sem tradição independentista e, logo, habituados a um poder central equidistante e apaziguador. O "nacionalismo árabe" é uma ficção. Os estados que nasceram após a Primeira Guerra Mundial são artificiais, verdadeiras mantas de retalhos étnicas e linguísticas, odiando-se entre si e incapazes de ascenderem do clã a um Estado moderno. A atestá-lo, o fracasso de todas as tentativas para unir os árabes sob um Estado laico, seja o nasserismo, seja o baathismo. Por seu turno, o Islão, com a sua mensagem universalista, tende a desprezar as fronteiras; logo, constitui-se como inimigo de unidades políticas e territoriais já por si frágeis. O Império Otomano conseguia o milagre de não atender a particularismos, respeitar aquela diversidade e garantir uma quase imparcialidade a todos os povos submetidos à Sublime Porta. Ora, tal império foi destruído pelo nacionalismo importado do Ocidente, pela separação do poder espiritual do poder temporal e, finalmente, pela cupidez imperialista europeia em apossar-se das importantes jazidas de petróleo. O nacionalismo turco - o chamado movimento dos Jovens Turcos - substituíu a lealdade devida ao Sultão pela ideia de cidadania turca, exclusiva dos turcos propriamente ditos, afastando ou relegando para um estatuto subalterno o imenso puzzle de povos que serviam o império desde o século XIV. O genocidio dos arménios e as perseguições aos curdos têm como origem o estabelecimento desse nacionalismo de vistas estreitas, entrado por influxo da histeria nacionalista que se apossara da Europa em finais do século XIX e que levaria à Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Em segundo lugar, o poder espiritual era detido pelo Califado otomano. Quando o califado foi extinto por Mustafá Kemal, em 1924, a separação entre o poder religioso e temporal ditou a desagregação da unidade islâmica e o seu consequente apossamento por lideranças regionais sem qualquer preparação. Se a desagregação do Império fora um desastre, o fim do califado foi uma tragédia. Olhando para o Líbano - um Estado que o não é, uma língua de terra com o dobro da superfície do Algarve partilhada por chiitas, sunitas, drusos e cristãos - podemos compreender a insustentabilidade de tal entidade. O Líbano não existe: devia pertencer à Turquia.
PS: Obrigado a João Alves pelo esclarecimento e correcção de uma gaffe incluída na primeira versão deste post.

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