31 agosto 2006

Mais Montesquieu, menos Rousseau


Quanto mais confronto Montesquieu com Rousseau, mais admiro o equilíbrio, sabedoria e realismo do autor do L'Esprit des Lois, que bebeu da fonte de Locke, a fonte da sensatez britânica que conseguiu construir a Liberdade mantendo a soberania real, sem guilhotinas, sem banhos de sangue, ditaduras virtuosas da razão, à Robespierre, ou guerras de agressão libertadoras, à Napoleão. O seu calmo relativismo (um povo produz os governos que a sua natureza determina), o seu desamor pelos messianismos (a lei, a Constituição devem prevalecer sobre as paixões), o reconhecimento que a diversidade e a desigualdade, longe de ferirem, enriquecem as sociedades (os britânicos mantêm a Câmara dos Lordes, para horror das crenças democráticas) e o desprezo pelo despotismo fazem dele arauto de uma ideia de política que tende ao apaziguamento, que recusa o medo e a violência. Rousseau é, simplesmente, o inverso: um visionário iracundo, cheio de sombras e insinuações que tanto servem para isentar as mais desbragadas tiranias como mitificar entidades abstractas. Rousseau é tenebroso: por detrás do seu amor pelo "povo", pela "virtude" e pela "vontade geral" esconde-se o totalitarismo, ou seja, o filho dilecto da Revolução Francesa. Esconde-se, também, o mito regressivo e a Utopia do Homem Novo, da Nova Sociedade e dos sóis esplendorosos. Rousseau é perigoso: odeia o passado, a história, as instituições, os usos e costumes, as tradições e crenças, as artes e a técnica, a ciência e o conhecimento. Em seu nome, todos os tiranos quiseram legislar sobre a terra queimada, a folha em branco, a ardósia negra.

Sem comentários: