17 agosto 2006

Günter Grass: nazismo e socialismo


A onda de falso pudor despertado pela tardia revelação de Grass assume proporções pouco mais que ridículas. É de espantar que a esquerda alemã, que cobre um arco latitudinal que recobre a burguesia bem-pensante, os "ocupas", os nostálgicos da RDA mais os sempiternos ingénuos, responda com pesar e indignação à confissão amargurada do Nobel. Para mim nada me espanta quando provindo de um sector idelógico que fez a social-democracia e quis manter, entre o piano de Helmut Schmidt e o caviar de Willy Brandt, adereços representativos do mito da Grande Revolução, fazendo concessões sobre concessões à Ostpolitik - leia-se reconhecimento dessa anormalidade chamada DDR - ou, ainda, enchendo a chancelaria federal de amigos e espiões de Moscovo. A relação conspícua da esquerda alemã com o comunismo era há muito conhecida, como também o terá sido profunda, inabalável e determinada na adesão ao discurso basista, revolucionário e socialista do nazismo. Se a direita alemã recebeu Hitler como uma violência sobre a tradição autoritária, imperial e nacionalista dos grandes latifundiários, industriais e aristocratas, nunca lhe tendo prestado grande tributo para além do medo e do oportunismo, a esquerda passou-se de armas e bagagens para um regime que cumpria três ou quatro características tidas por indispensáveis para a sua mundivivência: o mito da sociedade perfeita e do Homem Novo, o mito do voluntarismo transformador, a uniformização igualitária e o ódio ao dinheiro, à propriedade, ao indivíduo, ao cristianismo e ao viver habitual.
Compreendo Grass, então um rapazinho de 17 anos, fervente de acção. Alistar-se nas SS - não confundir as Waffen SS, uma tropa de elite, com os guardas e facínoras dos campos de concentração - seria a porta grande para a aventura, a nobilitação social e a morte heróica que o nazismo cultuava. Grass é uma criatura de Hitler. Nasceu em 1927 e toda a sua infância e adolescência foram moldadas por um Estado que dominava todos os escalões da vida social, impondo, sem contestação e oposição relevantes, os comportamentos, os sentimentos, a inteligência e crenças dos indivíduos. Grass foi mobilizado em finais de 1944. Não foi nem para a Marinha, nem para a Força Aérea, nem para o Exército. Escolheu, oferecendo-se como voluntário nas SS. Aqui reside o núcleo da polémica. Eu, com 43 anos, teria, por dever de defender a minha pátria, sido mobilizado para a Guarda Territorial, para as anti-aéreas, para o combate aos fogos dos bombardeamentos ou para o Volkssturm. Qualquer alemão que se prezasse ter-se-ia oferecido para defender a sua nação no momento em que esta se debatia na agonia e era invadida a Leste o Oeste pelos seus inimigos. Não se tratava de defender Hitler nem o nacional-socialismo, mas lutar pela pátria em perigo, como o fizeram os russos, os ingleses, os sérvios, os franceses e tantos outros povos assolados pelo flagelo da guerra. Grass escolheu as SS. Tratou-se, evidentemente, de uma escolha ideológica. Ninguém o obrigou e o próprio confessa que foi a porta de fuga para se subtrair à autoridade dos pais. Nesse simples comentário diz tudo: o nazismo foi, como o comunismo, um movimento que conseguiu, com mestria, impor o poder dos jovens - da violência, do sentimento, da vontade - sobre sociedades firmemente ancoradas na autoridade. Ora, então, não é de espantar que o percurso subsequente de Grass - militante daquela esquerda roçando o comunismo - poucas diferenças apresente em relação às suas primícias. Essa esquerda e aquele tribalismo - desfiles, emoções, sonhos, cânticos, massas, anulação do indivíduo - são expressão de uma mesma estética. Grass não se enganou. Escolheu, apenas, aquilo que melhor se enquadrava na sua visão do homem e da sociedade.

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