04 agosto 2006

Fazemos um ano


Foi há um ano: Miss Pearls, então xanelcinco, disse-me com as blandícias de quem oferece um bombom: "vá, Miguel faça um blogue". Eu, que me afastara com juras de eternidade de qualquer tipo de jornalismo - abominara trabalhar em "O Dia" como Sub-Director - lá lhe fiz a vontade, com a ligeireza de quem aceita uma boleia. Fiquei, fui entrando nestas catacumbas que vão, lenta, mas inexoravelmente comendo o jornalismo de papel. Gostei, mas por duas vezes estive quase a abandonar esta tribuninha. Devo ao Pedro Guedes o empurrão inicial; devo a tantos outros esforçados e teimosos a perseverança de manter, dia-sim, dia-sim, duas ou três anotações à "espuma dos dias", como lembra a divisa do misterioso Jansenista. Devo dez, vinte, trinta agradecimentos, mas seria injusto não os elencar a todos, sobretudo aos leitores que foram crescendo em número, empurrando-me para o 97º posto no blogómetro, encarecendo o Combustões e obrigando-me a não fechar a porta.
Julgo que cumpri o que prometera: discutir, revolver mitos, tabús e outras pratas oxidadas, revelar distância crítica sem nunca trair as minhas convicções, revelar a metamorfose que se operou em mim ao longo dos últimos dez anos, não discutir com amigos de sempre, não ceder ao desalento de verificar que aquele campo político a que pertenci um dia está, como dantes, imperturbável perante o caminhar da história. Sei que irritei muita gente que estimo, outras que nem conheço, que fui fazendo amigos e observadores atentos - e até fantásticos promotores - mas consegui passar. Fui, até, aprofundando a minha simpatia por pessoas com as quais jamais tivera relacionamento directo. Não posso culpar ninguém, sobretudo aqueles que esperavam uma coisa e saíu outra. Não gostaria que ninguém ficasse com a ideia que deixei de estimar menos os amigos que me convidaram para escrever aqui e acolá e depois deixaram cair um véu de silêncio. Compreendo-os e agradeço !
Ficou a lição: na vida devemos manter a manta calma sobre a capa da paixão, devemos aos novos e antigos amigos a sinceridade, mas devemos uma obrigação à nossa consciência. Fiz minha a divisa de Je Maintiendrai: aguentar, aguentar ! Afinal, tudo se pode discutir. Somos animais opinativos, uns mais racionais que outros; uns desesperados à procura de uma razão para existir, outros rindo-se com erasmiana lucidez da inutilidade de tudo.
Talvez um dia não distante encerre o Combustões, pois factos importantes aproximam-se celeremente. Estou tão dividido em obrigações e actividades que tenho de escolher uma vítima. Talvez seja o Combustões. Parabéns, também, para a querida Miss Pearls, que faz hoje um ano. A ela devem o Combustões. Quanto a mim, desejem-me apenas que consiga alijar o fardo.

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