31 agosto 2006

Dia da fúria


Parece mal dizê-lo, incomoda, provoca pruridos, insinua laços indesejáveis, mas a verdade é que o problema existe e está atingir proporções que podem justificar a aceitação das soluções mais extremadas: há uma criminalidade racial em Lisboa e arredores, há gangues de pequenos facínoras que tomaram de assalto bairros, vandalizam, agridem, roubam, importunam, pincham paredes e infernizam a vida dos cidadãos indefesos. As autoridades nada fazem. Cartas para o MAI, cartas para a Direcção Nacional da PSP, telefonemas para o Comando Distrital de Lisboa, abaixo-assinados, pedidos de intervenção da CML, queixumes para os assessores de Belém. O resultado ? Nenhum. Entretanto, a heroína, a cocaína, as pastilhas, os roubos por esticão, as ameaças de morte, os tiros, as violações e as rixas entre gangues sucedem-se perante a apatia das autoridades. Lembro-me daquele dia distante em que o inefável Soares-filho afirmou, de dedo em riste, ter fechado a porta do inferno em que se transformara o Casal Ventoso. Sim, fechou uma porta e abriu duas, três, cinco, dez janelas no Bairro Alto, na Mouraria, na Graça, na 24 de Julho, em Alvalade, no Alto de S. João, em Telheiras... Ontem houve tiroteio no Bairro Alto. Turbas de delinquentes negros, agora em luta acesa com ciganos para o controlo do tráfico de drogas, queimaram, partiram, assalataram durante horas turistas, esmurraram quem os quis demover. A policia foi chamada uma, duas, dez vezes e chegava, invariavelmente, meia hora após os desesperados pedidos de intervenção. Onde está o Sr. Ministro da Administração Interna, onde está o Senhor Director geral da PSP, o Comandante Distrital da PSP, o Director Geral da PJ, o Sr. Presidente da Câmara Municipal ? Onde estão os tribunais, os meretíssimos juízes, as leis e a sacrossanta Constituição da "República Portuguesa" ? É por estas e por outras que ouvi de um pobre homem sem letras o terrível desabafo: "olhe, perante isto, precisamos de um Le Pen". O homem, disse-me depois, viveu em França, numa daquelas mairies críticas dos arredores de Paris, onde há meses os "jovens" quase desencadearam uma guerra racial. "Em 1985 as coisas estavam tão más que já não podia sair à rua. Depois, apareceu o Le Pen e arrancou 30% na câmara. Os outros partidos apanharam um susto tão grande que as coisas mudaram. Seis meses após o choque FN, já não havia assaltos nem "jovens" a vender drogas". Pergunto-me se o extremismo é solução. Creio que não, mas por vezes ajuda os impávidos, distantes e sonolentos governantes a sair do aquário em que vivem. A democracia não é sinónimo de balbúrdia. Quando esta se instala, as democracias morrem.

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