09 agosto 2006

Coerência e incoerência: a propósito de Montaigne

É confortável estar no partido do contra: ser-se contra tudo, contra todos, odiar o presente fugindo à responsabilidade de agir, viver sem questionar as nossas crenças, fechando-as no aquário da ilusão. A maioria das pessoas procura a coerência, mas teme a mudança, o fluir natural, esquecendo-se que a lógica - toda ela coerência - envolve dinâmica e mudança. Aqui lembrei ontem, num curto apontamento sobre um dos maiores da blogosfera, esse nome tão inquietante da história europeia chamado Montaigne. Ora, a Montaigne ficámos a dever não só o impulso marcante na fixação do francês como língua literária e a influência marcante que teve sobre Shakespeare, mas, sobretudo, a descoberta do ensaio. Montaigne não teve medo nem da incoerência - aquilo que pensava nos primeiros Ensaios desdisse-o nos últimos - nem no julgamento dos outros. Incoerente, mas não Proteu - vulgo, vira-casacas - pois a fidelidade deve começar por nós e espalhar-se pelos outros que nos cercam. A mudança opera-se lentamente, migalha a migalha. É dolorosa mas benéfica, pois exprime luta interior, capacidade de interrogação e auto-avaliação. O contrário da mudança é o imobilismo. Muitos imobilistas copiam a mudança, ora sob a forma de conversão súbita - feroz, intolerante e extremista em relação a tudo aquilo que amavam mas deixaram de amar, passando para a polaridade oposta - ora fechando todas as portas ao demónio da razão que sopra sem cessar aos ouvidos. Imobilistas, nestas duas acepções negativas, são os ex-padres que passaram a odiar Cristo, os ex-comunistas que se apressaram a rasgar as batinas da ordem de S. Karl Marx logo que o seminário moscovita deixou de garantir o caldo diário, os ex-salazaristas que se apressaram a filiar-se no PC no imediato pós-25 da Silva. Como a inteligência é prática, temos a tendência para encontrar rótulos que definam uma pessoa: "ele é fascista", "ela é comunista", "este é sionista", "aquela é ecologista". Nunca atentamos na pluralidade de factores concorrentes para a definição, mas atemo-nos no mais simples e superficial. Esta catalogação é produto da necessidade da "coerência". Ora, ao invés de nos apegarmos à dedução, deviamos percorrer o caminho inverso - indutivo - das coisas para a sua definição. Então, espantemo-nos, poderíamos chamar democrata a um "autoritário", "internacionalista" a um "nacionalista", "cristão" a um "agnóstico". Em suma, nem tudo aquilo que parece é, quase sempre o que parece não é.

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