19 agosto 2006

Chupismo

Faço este mês 44 anos. Olhando para trás, vejo um eterno escuteiro fazendo favores a este, trabalhando gratuitamente para aquela, oferecendo horas de sono, férias e fins-de-semana para aquel'outro, acumulando dois, três e quatro funções sem qualquer retribuição - até mesmo um obrigado - em jornais, revistas, bibliotecas, universidades, editoras, associações, fundações e até mesmo - ali não volto mais - movimentos e partidos políticos. Vejo, também, um eterno pagador de almoços e jantares, aquele que nunca se esquece de um aniversário, de um cartão de Natal, de um funeral ou de um casamento; um pateta que incomodou dezenas para arranjar um empregozinho para aquela exclente rapariga, para aquele velho colega, uma bolsa para A, isenção de propinas para B, um contrato para uma editora para C, um depoimento abonatório para D, E, F e G que tiveram problemazinhos com a justiça.
Sei que devemos sempre oferecer e não pedir, perguntar o que demos à vida e não o que dela conseguimos retirar. Tudo isso, sim senhor, faz as delícias dos moralistas, dos homens probos. Infelizmente, sempre que me abeiro de uma dessas criaturas que tresanda a boas-novas, a fraternidades universais, camaradagens e torrentes de amiguismo sorridente, sinto, indizível, o hálito da hipocrisia, do chupismo e da duplicidade. Experimentei a sensação ao longo de anos e anos, muitas vezes interrogando-me se não seria eu o culpado. Sim, de facto estava enganado. Eu estava errado, não eles, porque, afinal, faz parte da atmosfera em que vivemos imersos.
O grande problema de Portugal está na cabeça das pessoas. O país está cheio de "projectos", de "iniciativas", de boas-vontades, mas tudo se desfaz contra a muralha de um egoísmozinho nulo, quase escatológico, em que as vaidades medíocres, as invejas do tamanho de pevides, as amizades cúmplices - como odeio a palavra cumplicidade ! - tudo travam, tudo dinamitam e desfazem. Somos um povo sem futuro, pois o interesse imediato, a referenciazinha na quinta coluna de qualquer pasquim, dois minutos de fama liliputiana são suficientes para alienar uma amizade. É assim que vivemos, 500x200 km, numa nesga em forma de ataúde. É a pátria do chupismo.

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