11 agosto 2006

Censurar e proibir: contra o pensamento único

Lembro-me ter passado há anos por uma fase hobbesiana, uma dúvida radical em relação à capacidade dos homens em fazer algo de útil com a sua liberdade, pelo que pensava que a melhor posologia contra a tendência inata que estes têm para fazer disparates seria reduzir-lhes a liberdade. Porém, cedo descobri que, se a maioria dos homens não tem a inteligência devidamente ginasticada, o velho bom-senso - olá Decartes ! - acaba por resolver grande parte das situações em que a preguiçosa inteligência não rasga a espessa cortina da larvar irracionalidade existente em todos nós. Ora, se a inteligência nos aconselha ao pessimismo e ao autoritarismo - os maiores filósofos sempre foram anti-democráticos, para não dizer liberticidas - o bom-senso diz-nos que é possível um compromisso. Lembro-me do profundo respeito que a Areopagitica de Milton me provocou. Milton serviu-se nesta obra de um aparente ataque ao catolicismo para defender o direito à liberdade intelectual. Aparente, porque, no fundo, toda a argumentação indicia mais um requisitório contra a ditadura moralona protestante de Cromwell, que um ataque aos "papistas" ingleses. O que diz Milton ? Que ninguém pode privar quem quer que seja de ler, interpretar, criticar ou defender ideias. Todo o homem tem o direito de aceder à informação contida nos livros - os nossos melhores amigos, aqueles que estão sempre disponíveis - seja essa informalção "boa" ou "má". Os censores - habitualmente analfabetos grosseiros, pois ninguém mais poderia exercer tal actividade senão os inimigos dos livros - mutilam, roubam e estropiam a cultura em nome de valores. Em vez de os defenderem, acabam por transformá-los em coisas odiosas; em vez de precaverem os outros homens contra a "má informação", acabam por torná-la cobiçada. Muito se tem falado ultimamente em proibir partidos, movimentos e associações. Coisa perigosa, sobretudo num país com vastas tradições de censura, inquisições, maçonarias e manipulações. Se somos a cauda da Europa, deve-se a isso: a essa tendência de proibir o que é diferente, o que é "condenável", o que não pode ser dito nem escrito, muito menos comprado ali na livraria da esquina. As ideias - há-as horrendas, há-as sublimes - não podem ser proibidas, nem presas nem queimadas. É por isso que devemos assumir a emulação, a concorrência, a pluralidade de que é feita a diversidade do mundo e a diferença de talante dos homens. Se assim fosse, se pudessemos dar cidadania a todos por igual, aqueles que são proscritos entenderiam que é possível ser-se livre e respeitar a liberdade dos outros. Há totalitários que se dizem "democratas", como haverá - e lembro com saudade o meu querido Rodrigo Emílio - "fascistas" que são homens livres, tolerantes e bem-intencionados. O que não podemos é aceitar a ideia redutora de que a "liberdade" tem donos, deve ter censores, policias, tribunais e cadeias. Comigo não contem para essa farsa. Vem tudo isto a propósito de um convite que ontem me foi endereçado. Pediam-me que participasse numa "mesa redonda" - a maior parte das mesas são quadradas - sobre a tolerância e a defesa da liberdade contra os seus inimgos. Olhei para o cardápio e só havia comunistas, ex-comunistas e tantos que andaram por aí a queimar e esvaziar bibliotecas em nome da Liberdade. Disse apenas: com esta gente não me sento. Ah, Liberdade, como te prostituíram !

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