18 agosto 2006

BRUNO OLIVEIRA SANTOS: comprem e levem para férias


Gosto de ser absolutamente bom ou absolutamente mau em tudo o que faço: ser o primeiro a chegar ou o último a aparecer faz parte da minha atitude em relação a tudo o que de importante acontece à minha volta. Desta vez, fi-lo, confesso, de propósito. Deixei que a obra surgisse nos escaparates, que se vertessem os encómios, os insultos e os comentários habituais de amigos, de inimigos e de admiradores. Falo da antologia que o Bruno Oliveira Santos em boa hora reuniu e publicou na Antília Editora. Comprei-o na Bertrand do Chiado e ali esteve, sobre a mesa, durante umas boas três semanas. No passado sábado sentei-me, fui folheando, saltando, detendo-me aqui e ali e dei por mim a recomeçar. Sorri, gargalhei, indignei-me, aplaudi, contestei, roguei pragas, disse "muito bem". É isto uma obra: algo que não nos pode deixar indiferentes. Contudo, um aspecto - eventualmente o mais relevante - obrigou a que me rendesse. O Bruno Oliveira Santos escreve primorosamente. Informado, culto, ideologizado, é o que é, mas o que escreve não decorre apenas da prática aturada de leitura de que dá mostras, mas do dom. Ora, o dom é o que se tem. É como o carisma: ou se tem ou não se tem. O Bruno é um escritor. Pena é que a inteligência de quem com ele discorda não se queira render à qualidade, desenvoltura e brilhantismo daquilo que escreve. Numa terra que está a transpor o limite trágico que separa o iletrismo da agrafia, Bruno Oliveira Santos demonstra, página a página, que ainda há letras portuguesas.

Sem comentários: