18 julho 2006

Zapatero: ódio e estupidez

Depois de tantas e tamanhas provas de imperícia, Zapatero quer agora reabrir as feridas da guerra. Nada esquecer, nada perdoar, tudo rever parece ser o lema do chefe de governo de um país que conseguiu no interim de 50 anos abandonar a cauda da Europa e afirmar-se como uma respeitada voz na cena internacional. Lembrar Franco é, para os republicanos, evocar as prisões, os campos de detenção, os trabalhos forçados e a emigração. Para os franquistas, lembrar a República implica a dolorosa lembrança da queima das igrejas, dos fuzilamentos, das fossas comuns, os comissários do GPU, a fome e a miséria de uma Frente Popular que se tornou fora da lei a partir do momento em que suspendeu a Constituição. A ilegalidade de Franco e do seu movimento militar rima com as perseguições da Cheka, o afastamento compulsivo do presidente Alcalá-Zamora, a prisão de todos os deputados conservadores em Madrid, a extinção dos direitos, liberdades e garantias; em suma, o governo da Frente Popular era ilegal e ilegítimo. A ilegitimidade de um governo não tem a ver com a invocação da vitória nas urnas, mas na forma como exerce o poder e acata as leis e o ordenamento constitucional. Nesse particular, Franco podia, com toda a honestidade, invocar o direito à rebelião. A história trágica da Frente Popular é marcada pelo apossamento gradual da legitimidade remanescente por um partido sem qualquer expressão eleitoral - o PCE - e a sua total subordinação às directivas de Estaline. Até no que diz respeito à intromissão internacional, Franco mantém superioridade: nunca se submeteu a Hitler ou Mussolini (deles recebeu apoio militar, técnico e logístico) nem permitiu que os seus gabinetes de guerra fossem cooptados por emissários estrangeiros. Ao contrário do que pensa Zapatero, a guerra de Espanha não é tabu: há centos, milhares de obras publicadas a seu respeito, pelo que invocar a necessidade da memória não passa de provocação destituída de sentido. A guerra acabou: a Espanha reconstruiu-se, industrializou-se, enriqueceu e tornou-se livre. Com a República empobreceria e teria sido, sem tirar nem por, o que foram os estados caídos sob o jugo comunista. Franco deixou um rei, hoje vértice e eixo da vida espanhola. Franco deixou uma classe média capaz de gerir um país moderno, progressivo e democrático. A República teria deixado uma nova Cuba. O ódio de Zapatero é uma infelicidade para Espanha. Ter-se-á esquecido que Franco perdoou, na medida das possibilidades, os vencidos ? É ou não verdade que Adolfo Suárez - secretário geral do Movimiento - era originário de uma família que serviu a República ? É ou não verdade que grande parte dos intelectuais espanhóis anti-franquista a Espanha puderam regressar ao longo das décadas de 50 e 60 sem que fossem incomodados ? Aconteceria o mesmo se o país tivesse a desdita de ver triunfarem as armas do PCE, dos brigadistas e dos comissários do Kremlin ?
Tenho absoluta convicção que Zapatero é republicano e pretende, se chegar o tempo, de colocar os espanhóis perante um referendo. Tenho, contudo, esperança que esse grande povo que tanto respeito saiba, uma vez mais, impedir a destruição da unidade.

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