15 julho 2006

O novo prussianismo

Quando Spengler publicou Prussianismo e Socialismo, em 1920, a herança autoritária alemã de matriz prussiana parecia prenhe para a conversão aos novos tempos marcados pelo ascenso das massas enquanto protagonistas de História. Para o autor da Decadência do Ocidente, o socialismo era compatível com o conservadorismo continental, não passando de uma actualização e potenciação da capacidade do Estado em integrar, coordenar e mobilizar mais vastos recursos humanos e materiais. O ódio de Spengler estaria, assim, dirigido para a tradição marítima, comercial, individualista e liberal. Veio Hitler, logo depois a clamorosa derrota alemã e o totalitarismo conservador-socialista deu por encerrado o seu curto ciclo. Contudo, se olharmos para os grandes espaços políticos que marcam a nossa contemporaneidade, verificamos que a herança prussiana migrou para duas grandes potências continentais do espaço euro-asiático: a Rússia, que desde o século XVIII é, sempre, um fiel imitador da velha Alemanha, e a China, hoje já não mais um aplicado estudante do marxismo, mas um originalíssimo alquimista em busca da síntese entre a tradição do autoritarismo confuciano e o industrialismo. Convido, para tirar teimas, que observem a parada militar que acima anexo. Ali está a velha Prússia, o anonimato cadenciado, o culto da hierarquia, a obediência, o protagonismo colectivo. Não há espaço para os pequenos e grandes lances individuais. Quem se afasta da unidade, é silenciado e proscrito: deixa de existir. O sorriso orgulhoso da multidão teria sido o mesmo na Unter den Linden em 1914 ou 1939 ou na Moscovo de 1913 ou 1945. Sabem que aquilo são "eles"- não o sr. Schmidt ou o sr. Rokossovski - mas uma mole de pensamento uniformizado. Se a Rússia só dificilmente se poderá adornar com as vestes democráticas, a China jamais o será sob pena de deixar de ser. Nós, ocidentais, temos de saber viver com essa evidência.

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