21 julho 2006

Mundialismo e globalização: o mito e a realidade

Persiste uma grande confusão entre o fenómeno chamado "globalização" e a "mundialização". Não há entre elas qualquer sinonímia, porquanto uma é um facto perante o qual temos de viver - e no quadro do qual nos temos de habituar a viver, sob risco de desaparecermos - e o segundo se apresentar como uma doutrina. A mundialização inscreve-se no mito da Utopia planetária, é tão antigo como as civilizações, revestindo-se a moda de modos vários (cosmopolitismo, tecnopolitismo, paz universal), e tendo, historicamente, relevante arsenal de propositores: Montaigne, Condorcet, Saint-Simon, Comte, Marx, Otlet e, ultimamente, o think globally. Há, por detrás do "mundialismo", uma clara apetência pela ideia de Império, aquela que mais diferenças apazigua e esbate, aquela que mais relativiza e torna possível pensar e reduzir a vida dos homens e dos povos a um mínimo de necessidades que dispensam os factores histórico-linguísticos, morais, religiosos e idiossincráticos. Os impérios foram sempre, em abono da verdade, os maiores promotores da multiculturalidade, da convivência entre populações diferenciadas; logo, respeitadores de tradições, modos de ser e estar. Para os mundialistas, todos somos aparentemente diferentes, mas essa diferença decorre, tão só, de formas diferentes de resposta às mesmas necessidades: reprodução, protecção, tecto e comida. O mundialismo menospreza a psicologia, o peso do passado e do simbólico, atendo-se unicamente às pulsões estruturadas (cultura, Estado, sociedade). Daí que julguem - desastrada e superficialmente - bastar invocar a liberdade de mercado, a democracia e os direitos humanos para se encontrarem os fundamentos de uma ordem internacional marcada pela tolerância, a paz e a boa-vizinhança. Discordo em absoluto, pois até os mais respeitados decanos do pensamento liberal reconheceram que a organização, o sucesso, a abertura à ciência, a inovação e criatividade tecnológicas, o respeito pelas minorias, a produção de leis justas e demais factores de progressividade têm a ver com factores estruturantes de comportamentos e atitudes colectivas erigidos ao longo de séculos. O triunfo da Europa e do Ocidente foi produzido pela história, longa de 2000 anos, pelo que julgar reproduzi-lo em atmosferas avessas a essas premissas tem sido nota dominante dos desastres em que o Ocidente se tem vindo a envolver. Não se queimam etapas: as coisas derivam de lógicas que decorrem geração após geração, não havendo qualquer fórmula mágica de engenharia antropológica, cultural e social que as possam precipitar. O Ocidente poderia tentar a solução gradualista, por exemplo no Iraque e no Afeganistão. Em vez de lhes imporem democracias parlamentares, tentassem , por exemplo, reimplantar formas de governação apaziguadoras da conflitualidade. A solução monárquica para o Afeganistão esteve prestes a triunfar, mas de imediato surgiram os predicadores, os mitómanos e os adoradores dos Pais Fundadores e do 14 Juillet impondo a liberdade onde esta ainda não tinha germinado. O mesmo aconteceu com o Iraque, com os resultados que conhecemos, não obstante toda a surpreendente coragem e firmeza dos soldados da "Coligação".
Falhou, nesta vertente, o mito mundialista da democracia, liberdade e mercado. Porém, um outro mundialismo responde-lhe: o mundialismo islâmico. Não sei se os caros leitores se terão apercebido que ao mundialismo democrático se opõe um mundialismo messiânico, proselitista e feroz detentor da "sua verdade" que ameaça transbordar das fronteiras históricas do Islão e entrar porta dentro pela Europa, pelos EUA, pela África subsariana e pela Ásia não muçulmana. Disse aqui há meses que os Islão está condenado à morte. Sem cair em contradição, apenas posso acrescentar que a agonia do Islão enquanto resposta absoluta ao Ocidente, pode constituir um perigo. Desesperados, estão a substituir o velho discurso do 3º mundo, nascido em Bandung, dando-lhe nova acutilância. O ódio ao Ocidente é sinónimo de inveja pela riqueza dos ocidentais mas, também, e sobretudo, pelo mundialismo ocidental que após séculos de colonização directa se quer impor no policiamento das formas de organização social, na codificação legal, nos comportamentos e na forma de governo.
Aqui chegamos à globalização. A democracia, o respeito pelos direitos das mulheres, a aceitação da participação das populações na escolha dos seus representantes, o direito à iniciativa individual são adereços do mundo globalizado. Aqui todos desejamos o triunfo da Liberdade. Não pode viver num mundo globalizado quem defenda a guerra, a extinção dos adversários, o apossamento do poder, a ameaça à paz e segurança mundiais. Se os Islão é isso, use-se a solução intermédia. Aproximemo-nos do Islão forçando-o a adoptar regimes que respeitem o peso do passado, mas garantes daquele mínimo de condições que permitam, lenta mas seguramente, abrirem-se à plena adesão da globalização/universalização da democracia. A Jordânia conseguiu-o, como também o estão a coseguir o Kuwait, os Emirados e Omã.

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