20 julho 2006

Eu fico mas o Duque de Bragança sai

A discussão sobre o Protocolo de Estado - em surdina modelado no remanso do verão escaldante, tal como a outra, ainda mais escandalosa, que ontem terminou e isentou os deputados de declarar ligações a grupos religiosos, maçonarias e futebóis - é paradigma de um certo estado de espírito e de uma estética social que não posso deixar de contestar. Armadilhada ab initio por um forte preconceito anti-católico e anti-monárquico, a proposta do PS mais parecia um remake (envergonhado, bem-postinho, educadito) das prédicas primo-republicanas à Flausino Torres. É lamentável que algumas franjas do bloco central continuem a ditar cartas, perpetuando os mitos desse positivismo roncante que tantos estragos causou ao longo de 150 anos na relação dos portugueses com o seu passado. Sinto-me perfeitamente à vontade. Como não sou católico, reconheço que a Igreja Católica é um dos esteios marcantes da vida e história portuguesas. Como monárquico, impõe-se-me a evidência da relação directa entre a independência nacional e a monarquia.
Ora, no Protocolo agora aprovado, o Chefe da Casa Real, herdeiro dos Reis de Portugal, fica de fora, mas ficam os presidentes das juntas de freguesia, os membros das assembleias municipais, os assessores, os directores-gerais, os directores de serviços, os chefes de divisão. Se a preocupação era, aparentemente, a de dignificar cargos e funções electivas, tudo ficou clarificado ao enxertarem-se-lhe cargos de confiança política e outros providos por concursos públicos. Ora, nesta exaltação do serviço do Estado - outro mito jacobino a que os franceses se agarram como gatos a bofe - fica de fora aquele que representa setecentos anos ininterruptos de serviço à comunidade: o Chefe da Casa Real. Eu fico, SAR sai ! Uma patetice, dirão alguns. Sim, mas acrescento: um preconceito cego a tudo o que os votos, as influências e os amiguismos não conseguem obter ! Se não consegues ser-lo, elimina. Se não puderes comprar, destrói. Ressuma de tudo isto uma simples e triste palavra: INVEJA.

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