16 julho 2006

Agostinho da Silva: 100 anos que não acabam

Terá sido, sem dúvida, um dos maiores portugueses do século que passou. Teve a sorte de todos os homens superiores num país que detesta a inteligência, a liberdade e a iniciativa. Viveu como quis, saíu quanto quis, voltou quando quis. Não viveu do dinheiro dos regimes, amou e compreendeu Portugal até à medula. Alguns pretenderam colocá-lo nos altares do oficialismo medíocre: usaram e abusaram da sua imagem, dos seus gatos, da sua excentricidade libertadora. Tal como acontecera com Sérgio, com Manuel Antunes, com Saraiva, Eduardo Lourenço e Fernando Gil, tentaram sem sucesso colá-lo à carroça dos partidos, dos lugares-comuns e das superstições que legitimam aqueles que nunca leram, nunca pensaram, nunca amaram Portugal. Quando o compreendeu, afastou-se e preparou, com doçura, sem ressabiamento, o passamento. Continua vivo. Um gigante que sobreviverá aos politiqueiros, aos arranjismos e à crónica ausência de decência que nos fez o que somos: pequenos, envergonhados, cinzentos e invejosos. Ontem comprei dois volumes da obra completa de AS que a bom tempo Paulo Borges, com fidelidade, tem vindo a editar. Nestes 100 anos de Agostinho da Silva, importa que nos abeiremos da genialidade, perseverança e obra de um gigante que passou entre nós, que nos amou com paixão, sem condições, sem rodriguinhos e vacilações. Ao invés dos "intelectuais", foi um sábio, nunca da boca lhe saíu uma acusação ou uma nota de desprezo por este grande país que não merecemos.

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