03 junho 2006

Tenho um medo terrível de Bolonha

A terraplanagem implícita na Declaração de Bolonha - uma espécie de Solução Final para a diversidade que faz a riqueza cultural da Europa, planeada pelos Eichmann de fato e gravata da Eurocracia - mete-me um medo que não consigo, por ora, traduzir em palavras e ideias. Tenho medo de todas as estandardizações, tenho pavor aos planificadores e a aos burocratazinhos intrometidos e nulos que se dedicam a essa coisa oculta que dá pelo nome de "Ciências da Educação". A nossa Universidade é uma monumental fraude, está povoada de imbecis, é conservadora, afectada, ideologizada até ao tutano, carregada de baias, tiques e preconceitos. Há excepções - algumas conheço-as pessoalmente e recomendam-se - mas a maioria dos homens, dos programas e dos dirigentes vivem da Educação como poderiam viver de croissanterias. Contudo, é nossa, em português: os erros ortográficos, as incoerências, as falhas e as fragilidades não se podem aí ocultar.
Vem Bolonha, os estudantes vão viajar, mudar de ambientes, conhecer outros horizontes. Tudo bem , porquanto na Idade Média - esse grande momento de afirmação da cultura e da formação de uma verdadeira elite, que não voltou a acontecer na história da nossa civilização - os estudantes percorriam estradas e montes em busca de quem melhor os ensinasse. Não, o que me apavora é a expectativa desses passeios, ao invés de fortalecerem, libertarem e abrirem horizontes, aprofundarem o já indisfarçável ar de farsa que conspurca a Universidade portuguesa. Um jovem frequenta aqui uma cadeira de Antropologia, segue para Espanha onde acompanha aulas de Teoria da Literatura, desloca-se para França onde se mune de uma importante bagagem em História da Apicultura, vai para Itália onde termina com êxito Filosofia Indiana, dá um salto à Grécia onde lhe dão rudimentos de Paleografia e Diplomática, aterra na Alemanha e acrescenta ao curriculum tudo o que pode aprender sobre Batik balinês, segue para a Dinamarca e confirma-se um excelente aluno de História do Equador. Temos licenciado, na pior das hipóteses, pois mestrados, doutoramentos e pós-docs aguardam-no num ciclo que terminará por volta dos 35 anos. Este torvelinho de mudanças, viagens e convívios cheira-me a negócio para fundações, mecenas interessados e demais generosidades capitalistas.
Conheço muitos paizinhos que enviaram os filhos para incursões ao grande mundo das universidades de renome. Para seu espanto, ao voltarem, os filhos haviam-se transformado em imbecis, fingindo terem-se esquecido do português e pedindo que os tratassem por John, Mary, Steve e Paola. É evidente que Oxford, a London School of Economics (esta é para o André Azevedo Alves), Heidelberg e a Sorbonne serão sempre o melhor passaporte para a formação de elites. Estou totalmente de acordo. Um licenciado, mestre ou doutor saído dessas academias brilhará pelo ensino exigente aí ministrado. Que vão, os poucos e bons, e regressem para nossa honra e proveito.
Agora, com Bolonha, a Sorbonne vai misturar-se com as universidades de Timissoara, Bardejov, Kielce, Mechelen, mais as inefáveis "privadas" portuguesas, conhecidas pela usurpação que fizeram ao bom nome de um diploma.

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