06 junho 2006

Passaram 100 anos


Passaram, sem nota evocativa, 100 anos sobre a ascensão de João Franco Castelo Branco (1855-1929) à presidência de um ministério de salvação nacional. Sem dúvida um dos nomes mais achincalhados e difamados da história portuguesa contemporânea, foi tão insultado pelos republicanos - bombistas, dinamitistas e golpistas que nele viam um dique à expansão da violência e intimidação com que o PRP pretendia tomar o poder - como pelo baronato dos partidos monárquicos há muito sentados à mesa do orçamento. Franco chegou tarde de mais, após anos de tumultuosa vida pública, eterno enfant terrible de um regime que entrara em coma definitiva na década de 90 de Oitocentos. Há uma similitude chocante entre a atitude de João Franco e aquela que num outro extremo da Europa sacudia a geração dos Jovens Turcos. Portugal e o Império Otomano - o "homem doente da Europa" e o "fiel aliado da Grã-Bretanha" - pareciam ter chegado ao momento das grandes decisões. Se para os Jovens Turcos, a Sublime Porta requeria um tratamento de choque à base de autoritarismo, nacionalismo, modernização e secularização - que mais tarde Kemal Atatürk aplicaria sem titubeios - para os franquistas do Partido Regenerador Liberal, em parte herdeiros de Oliveira Martins - a prioridade era dada à reforma do sistema, mercê da democratização e desarticulação do caciquismo. Os interesses instalados - desses que em Portugal servem todos os regimes, todos os partidos e o correspondente como infame tráfico de influências - reagiram. No fundo, Franco sempre o disse, queria governar à inglesa; por outras palavras, queria um Portugal mais europeu, mais liberal, mais aprumado. Sabia-se que se João Franco triunfasse, muitos interesses seriam postos em causa, a começar por aqueles que mais ganhavam com a ingovernabilidade: os repúblicanos. Os republicanos mandaram matar o Rei e o Príncipe da Beira (uma infâmia que jamais conseguirão lavar), e os monárquicos hostilizaram-no. Franco saiu sem glória da ribalta. O país não compreendeu que mais tarde ou mais cedo os acontecimentos dar-lhe-iam razão. A República Velha falhou estrepitosamente e veio Sidónio; a Nova República Velha caiu de pobre e dela saiu Salazar.

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