04 junho 2006

O caminho do meio


Olhando para o século trágico que nos precedeu, serenos, apaziguados, sem contas a ajustar com o passado, podemos afirmar sem grande escândalo que tudo teria sido melhor se o bom senso, a razão e a via intermédia tivessem imperado. A política é, obviamente, um jogo em que a intercecção da irracional vontade de poder acaba por predominar sobre todas os outros factores. Porém, se atentarmos, a possibilidade de escolher entre o mal menor e o que se lhe opoõe, está sempre em cima da mesa. Habitualmente, a paixão, o ódio, a casmurrice e as questões menores acabam por prevalecer na decisão de quem, julgando servir uma causa, uma comunidade ou um grupo de pessoas, acaba por se servir da liderança para dar vazão a motivos de mesquinha subjectividade. Tenho andado ocupado com uma obra, que estimo recomendável para a compreensão desse tremendo cataclismo que foi a revolução bolchevista na Rússia. Da autoria de Alexis Wrangel, filho do Barão General Wrangel, Wrangel 1878-1929: Russia's White Crusader , vem comprovar que, afinal, entre o inconsequente sonho do retorno da autocracia czarista e o flagelo comunista, entre a reacção e o totalitarismo, havia um líder, um corpo de ideias, um programa e gente capaz de oferecer à Rússia um destino bem diferente. Sob a direcção de Wrangel, os Brancos detiveram e fizeram retroceder momentaneamente o Exército Vermelho de Trotsky, acolhendo e tratando milhões de fugidos ao Terror Vermelho. No exército de Wrangel não havia discriminação religiosa, fossem os combatentes ortodoxos, católicos, judeus ou muçulmanos, nem políticas, fossem os soldados monárquicos, liberais ou socialistas. A justiça funcionava, e como o grande problema da sociedade Russa era a questão da terra, Wrangel concebeu e aplicou uma reforma agrária bem sucedida, reparando os latifundiários e centuriando propriedades pelos famintos camponeses. Quando abandonou a Crimeia, em finais de 1920, esta era a única região do país onde não se morria à fome. Tradicionalista e eslavófilo, reconheceu que uma Rússia Branca vencedora devia curar as causas que haviam deflagrado a revolução, sem lançar mão às teorias conspirativas que, cómodas, são sempre redutoras. Foi uma pena, como o foram também, noutras paragens, o fracasso de Chiang Kai-shek na China, do Partido do Centro Católico de Von Papen na Alemanha, de Calvo Sotelo em Espanha de de João Franco em Portugal.

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