14 maio 2006

Velhos mestres, novas cavalgaduras

Fim de semana no remanso do sofá cor-de-jade lendo, desgarrados, textos de prosa doutrinal portuguesa, curando a enxaqueca com velhas tisanas literárias. Páginas de José Acúrcio das Neves, provando a modernidade de um pensamento miguelista dinâmico; a prédica camiliana n'O Vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza, cuja ferocidade contra os servidores da Albion - aliada inimiga - me leva a lamentar não termos hoje ninguém com circunvoluções para fazer igual a respeito do descaminho que leva a submissão indigna aos príncipes da Europa que se nos impõe; o fogo sagrado do patriotismo de Fialho na Expoliação Portuguesa em África - outro texto anti-imperialista contra a trissecular ladra que nos dizia proteger - lembrando que as relações entre povos não são, decididamente, coisa de moral mas de interesse; por último, um belíssimo texto de Almerindo Lessa, esse grande esquecido, com uma reflexão sobre a Ecologia do Homem Português, cada vez menos menos semeado pelas partidas do mundo, cada vez mais encurralado, mutilado e bisonho. Textos sem rugas, verdadeiros, edificantes e reflexivos, escritos sob o signo do desespero de três momentos (1834-1890-1974) em que se decidiu o ser e não-ser desta comunidade de destino que é a pátria portuguesa.
Fim da tarde. Passagem pela FNAC: centos de sociologices, cientificices, filosofices e literatices. Um multidão de sonâmbulos remexendo novidades sobre a Globalização, os segredos da Opus e do Código, os "gender studies", a "arte" das instalações de barricas e papelões, as carrilhices e demais ganga. O fim de um tempo. A entrada com pé direito na barbárie.

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