19 maio 2006

Veiga Simões e o fracasso da política económica nacional-socialista



Oferecido por uma colega do Ministério dos Negócios Estrangeiros, esta verdadeira revelação saída dos arcanos do Arquivo Histórico-Diplomático é merecedora de uma leitura atenta. Da pena de Veiga Simões, diplomata que aliava o esmerado serviço do Estado com a produção de obra de assinalável vulto nos domínio da história económica e da economia internacional, estes relatórios enviados da Alemanha entre 1933 e 1939 prometem desfazer muitos equívocos a respeito das relações entre o Reich e o governo de Salazar. Implacável, também, na análise dos mecanismos do Estado totalitário, desfazendo mitos ainda muito arreigados sobre o "modelo económico" do Nacional-Socialismo, faculta-nos a perspectiva de um estrangeiro com acesso a informações habitualmente vedadas a jornalistas, viajantes e meros espectadores na tragédia europeia nos anos que precederam colapso da Europa. Veiga Simões escalpeliza com fina argúcia as causas imediatas da subida de Hitler ao poder, desmonta uma a uma as razões invocadas pelos defensores do regime alemão e profetiza a inevitabilidade do fracasso de tal modelo. Veiga Simões demonstra que, para lá da propaganda de um regime inflamado pela retórica, havia milhões de desempregados encapotados, persistia a penúria alimentar, o racionamento e o desespero - tidos por extintos no imaginário dos seguidores do nazismo - mas, sobretudo, uma imensa indiferença cívica escondinda pelo efeito das grandes massas arregimentadas para comícios, paradas e recepções. A autarcia económica estava a matar a economia do Reich, a destruir o Marco e a esvaziar o ouro do Reichsbank. Ao povo alemão, tributado a níveis hoje considerados absurdos, a braços com uma carestia de preços que orçava 40%/ano, restava o divertimento artificial proporcionado pelos acampamentos, pela Kraft Durch Freude e pela rádio. Paralelamente, um medo insidioso - medo das denúncias, das prisões arbitrárias, medo dos campos de internamento - caminhava a par de uma campanha pouco mais que grosseira contra a cultura ( as universidades do Reich viram cair em seis anos o número de alunos para 25% do contingente de 1932 ! ), contra a religião e contra as mais elementares liberdades individuais. Veiga Simões segue e opina sobre tudo isso, mas detém-se na oposição interna, cada vez mais forte, que identifica com a velha elite alemã (Junkers) e com o Estado Maior. Hitler, entre a manteiga e os canhões, optou pelos canhões. Ganhou, assim, os favores do alto capital e da grande indústria. Era certo, para o nosso observador em Berlim, que a velha casta militar - que recusou a utilização da suástica como bandeira - passara a dominar todos os passos do governo. O mercado e os cidadãos empobreceram, o exército enriqueceu. Ora, para evitar o colapso mais que certo de tal política, a única via que lhe restava era a guerra. Esta surgiu em 1939, quando o Reich debatia-se já com um desastroso segundo plano quadrienal - não era quinquenal para evitar a evidente analogia do regime com a URSS de Estaline - que implicava uma corrida para a frente. Uma nota lateral para compreender o crescendo de ódio canalha contra os "inimigos" do Reich. As campanhas contra inimigos imaginários do Reich - judeus, católicos, monárquicos - foi-se tornando cada vez mais expressiva à medida que se acastelavam os fracassos económico e social internos e o crescente isolamento diplomático do país. A um governo fundado no amadorismo, devorado por ódios e rivalidades quase infantis, impaciente e presa da exaltação que exigia das massas - mas que tinha de retribuir, aumentando a fasquia de novas combustões populares - só lhe restava exportar a insatisfação. A guerra que Hitler iniciou em 39 impediria, afinal, o colapso interno do regime, mercê da invocação do orgulho nacional alemão, arreigado desde o Segundo Reich. Agora se compreende o alcance daquela expressão tão usada pela oficialagem alemã durante a guerra: "quando vencermos a guerra, arrumamos a casa" ! Tendo dado todas as regalias às forças armadas, o regime, quando deixou de poder pagar - exigindo-lhe apenas sacrifícios - transformou-se num refém. A revolta dos generais, em Julho de 44, era sintoma desse afastamento definitivo. Mas o regime, que poderia patrioticamente deixar a cena, manteve-se, obstinado. Arrastou com ele o povo alemão. Mas disso não falou Veiga Simões, que foi substituído em 1940 por Nobre Guedes.

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