09 maio 2006

A Restauração monárquica fracassada e Salazar


Longe de mim imputar a um solitário a responsabilidade dos males e trágicas hesitações deste país. O que disse - alertado para o conservantismo chão e a inabilidade táctica dos monárquicos - foi apenas um "desabafo empírico", produto de muitas conversas que me foi possível manter ao longo dos anos com monárquicos que estiveram com o Professor Salazar. E vem isto tão a propósito, dado o meu caro (e admirado) Corcunda fazer um diagnóstico que estimo brilhante a fórmulas de poder discricionário - "asiático" - que se comprazem com o imediato ou com a ilusão da eternidade em que sucumbem sempre as longas ditaduras. O poder pessoal pode caber também - et pour cause - a um génio, mas termina abruptamente quando este falece. Disse-me várias vezes o Professor Jacinto Ferreira que Salazar quis manter a ilusão do carácter permanente do regime, mas sabia - conhecendo tão bem os homens - que tudo se desagregaria após o seu passamento. Neste particular, se há culpas, essas não foram de Salazar. A luta de bastidores foi terrível contra os monárquicos. Transformaram o "partido monárquico" em algo testemunhal, deram-lhes meia dúzia de lugares na Assembleia Nacional, mas, ao mesmo tempo, vigiavam os seus jornais, confinavam D. Duarte Nuno a uma indigna vida de "Corte de Aldeia", alienavam fidelidades em troca de acenos e promessas miríficas e até compraram favores de alguns mais venais com lugares de estadão no Estado e grandes empresas. O Professor Jacinto Ferreira tinha inimigos irredutíveis na Assembleia. Sempre que aludia à questão em aberto - a Restauração - era censurado, cortavam-lhe a palavra ou, simplesmente, mudavam a ordem dos trabalhos. Leia-se, com proveito, os Diários da Assembleia Nacional, copiosa fonte de informação. Quando se deslocava ao Ultramar, onde o seu jornal tinha bons e numerosos contribuintes, faziam todos os possíveis para que a agenda fosse cancelada. É evidente que as coisas em Espanha se passaram de forma diversa. Franco ganhou uma guerra, assaltou o poder a tiro e foi-lhe possível impor a sua vontade. Mas, para além disto, concebeu uma teia de compromissos e obrigações que sabia sobreviveriam à sua morte. É hoje claro que Franco sabia que um regime assente no carisma e autoridade de um líder não iria durar muito; daí que procurasse uma fórmula sucessória mais próxima da sua concepção de poder: pessoal, irresponsável*, transpersonalista e tradicional. Ora, a monarquia - seja qual for o seu enquadramento epocal - tem um pouco disto. Ocorre-me a feliz definição que Jose Maria Pemán fazia a propósito da monarquia que gostaria ver restaurada: "algures entre o fascismo e o tradicionalismo"; por outras palavras, congregadora, vertical, orgânica, autoritária e memorial. Em Portugal, não obstante se haver erigido um regime com todas essas características, não houve qualquer percepção do dia seguinte à morte do arquitecto. É evidente que o regime era Salazar e que tal construção não resistiria - não podia resistir - à sua saída do palco. A irresponsabilidade de Salazar perante os poderes que partejou - Assembleia Nacional como eco do seu pensamento, Câmara Corporativa tecnocrática, Presidência da República cooptada por colégio eleitoral, Conselho de Ministros atomizado, União Nacional como não-partido, etc - só funcionavam conquanto vivesse. Ao morrer politicamente (1968), a ilusão mostrou-se ainda capaz de alguns assomos de autonomia fictícia, pois Marcello surgia aos olhos dos portugueses como o "sucessor" de Salazar. Porém, a ilusão foi o que foi: não resistiu à acareação da realidade.
Volto à minha: se em Abril de 74 houvesse uma chefia de Estado dinástica, não teria havido PREC, nem descolonização-debandada, nem subversão da hierarquia militar.

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