31 maio 2006

Portugal tem futuro?


A pergunta infunde medo, mas tem de ser formulada. Não sendo nova, a questão da viabilidade de Portugal exigiu sempre dos portugueses de todos os tempos um assomo de coragem. A sobrevivência das pátrias não se limita a reles questões de contabilidade, riqueza ou interesse egoísta. Se há alguma coisa a que estamos irremediavelmente agarrados é ao país. Do seu sucesso deriva o nosso bem-estar, amor-próprio, realização pessoal e profissional. Do seu fracasso, a corveia que pagaremos à precaridade, à pelintrice, à insegurança, à subordinação e à instabilidade. No século XV, os Portugueses encontraram na expansão marítima a alternativa à sufocação. Em finais do século XVI, a grande viragem estratégica e opção pelo Brasil face ao oneroso Oriente, garantiu o estabelecimento de um modelo absolutamente novo de produção de riqueza e duplicação da matriz europeia da nação. A invenção da Nova Lusitânia (Brasil) antecipou em 150 anos a ideia de uma América acolhedora da iniciativa, do valor e capacidade de homens comuns, com a vantagem do Brasil se ter afirmado, desde o primeiro momento, como prolongamento de Portugal e não como terra de exílio voluntário. Em 1640, Portugal escolheu com tremendo risco a opção de viver independente. A independência paga-se. A liberdade exige sacrifícios. Os nossos Restauradores escolheram a liberdade sacrificada e venceram. Boxer deixou páginas vibrantes dessa luta tremenda em que o país investiu toda a sua juventude e inteligência.
Em finais do século XIX, nova crise de consciência. Ninguém dava a Portugal outro destino que o de se vergar ante a lógica iberista, a mais cómoda, a mais vantajosa, mas um inesperado surto de patriotismo sacudiu-nos do capitulacionismo. Vencemos os reinetes africanos acicatados e armados por britânicos e alemães e no ínterim de duas décadas já nenhuma chancelaria europeia punha em causa a legitimidade da presença portuguesa em África.
É uma banalidade dizer que o mundo mudou. O mundo muda todos os dias. Infelizmente, se no passado nos conseguimos integrar no espírito do tempo, hoje muito poucos contrariam os dados do nosso recuo, amolecimento e incapacidade. Todos sabemos que os ventos sopram contra o proteccionismo, o "Estado social" e o parasitismo, o parlamentarismo palavroso e o amadorismo. Todos sabemos que a globalização é irreversível, que o espírito americano venceu e passou a marcar a cadência. Ora, os reaccionários - de direita como de esquerda - teimam estupidamente em contrariar a tendência do tempo, nada oferecendo em troca. O futuro passa pela demolição do mito igualitário, pelo desmantelamento do Estado providência, pela criação de uma cultura que premeie a iniciativa individual e pela aceitação da ideia de que o exercício da actividade política é sinónimo de tecnocracia ( = poder para a competência) e economicismo (= viver em função da realidade económica). Não há direitos sem riqueza, não há distribuição e defesa de "conquistas" sociais sem esteio. Enquanto não o aceitarmos, estaremos condenados a pedir o impossível. A ideia de Portugal é maior que a economia, a contabilidade e os jogos empresariais. Contudo, a economia é a base da força das nações. É da riqueza que nascem a tecnologia, o saber aplicado, as artes e a especulação. Sem ela, nada feito.

Sem comentários: