23 maio 2006

Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental (9)


Crianças do asfalto nos anos 40:
O meu pai (1934) e o meu tio (1939). Nascidos na burguesia da cidadezinha colonial - construída por essa mesma burguesia – longe do mato e dos nativos. Uma vida regrada, com os brinquedos do tempo - não a loucura actual -, a revista O Mosquito, a Condessa de Ségur, a Ana de Castro Osório e as adaptações de clássicos feitas pelo António Sérgio, João de Barros e Simões Muller como companhia . Não posso dizer muito sobre a infância do meu tio, porquanto, sendo cinco anos mais novo do que o meu pai, vivendo consequentemente noutro mundo, veio estudar para a metrópole aos 13 anos e cá ficou no Colégio Almeida Garrett, no Porto, para fazer os 5º,6ºe 7º anos liceais antes de seguir para a Universidade. Criança sem dotes para a bola e gosto pelo universo do papel, o meu pai começou a aventura dos livros por volta dos 10 anos, com Salgari, Ponson du Terrail, A. Dumas (pai) e Júlio Verne antes de se deixar sucumbir ao encanto dos clássicos. Como muitos miúdos de Moçambique, jogou ténis desde muito cedo, mas nunca passou de um jogador vulgar. No Clube de Ténis, que funcionava no Jardim Vasco da Gama, depois de duas ou três horas de raquete, refrescava-se com lemon squash da praxe na companhia do seu ainda jovem tio materno, um dos bons jogadores da colónia. A sua predilecção, porém, eram as raras livrarias – a Minerva Central – onde lhe permitiam ler de graça e até fiar os volumes apetecidos. Por volta dos 12 ou 13 anos, o pai colocou-o a tomar conta da magnífica biblioteca do Clube Ferroviário; abria a porta, regalava-se a ler e a construir sonhos, fechava a porta à hora determinada, na maior parte do tempo sem que aparecesse um leitor. Aos sábados à tarde, ia à matiné ao Gil Vicente" (da família Rodrigues, de que o dono foi padrinho de casamento dos meus avós) ou ao Scala. A este, já maior (17/18 anos, principalmente depois de ter começado a trabalhar), ia aos domingos de manhã - assim fugindo à praia que sempre o incomodou muito - assistir a filmes de acção: cowboys, policiais, espionagem. Gostava de ouvir Rádio e muito cedo começou a frequentar o Rádio Clube de Moçambique, onde cantavam colegas seus do martírio que foi a vida liceal nas disciplinas de Físico Químicas, Matemática e Ciências Naturais. No RCM fez amizade com Ahrens Teixeira, o director, que tinha idade para ser seu avô, bem como com os locutores Manuela Arraiano e José Mendonça, que achavam piada ao amor do miúdo pela rádio. Às quartas-feiras e aos sábados, religiosamente, havia reunião familiar em casa dos meus bisavós. Bolos, biscoitos, conversa de família, comparação disputada das prendas de inteligência e sucesso escolar das crianças. Uma vida pacata; uma boa mesa, cuidada, com horas para tudo e para nada. Podia ouvir o coaxar das rãs e o correr das nuvens!

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